sexta-feira, 24 de junho de 2022
terça-feira, 15 de março de 2022
A caçada
Quando eu soube que hei-de morrer, entrei imediatamente em pânico.
Isto, se não me ilude a memória pela névoa dos anos, deve ter acontecido tinha eu uns cinco ou seis de idade quando o meu avô levou-me, pela primeira vez, à caça. Era uma manhã fria de Outono e uma fina película de cristais, depositada durante a noite, cobria as forragens do gado num lençol branco a perder de vista. O halo da respiração, doutra forma invisível, confirmava a temperatura ambiente. A cada exalação parecia que pedaços de alma se separavam irremediavelmente dos corpos. Naquela fria manhã, este cisma acontecia repetidamente diante dos meus olhos, não só a homens como também a outros animais, pelo que a minha lógica infantil logo formulou secretamente o axioma "ser que respira tem alma". É por esta misteriosa comunhão que todos se chamam animais porque providos de "anima" como viria a aprender mais tarde nas latinidades.
Nem o frio arrefeceu a perspectiva de uma aventura em companhia do meu avô. Ainda o sol era um embrião no ventre das montanhas, já o leite borbulhava no fervedor suspenso nos malabarismos da trempe sobre o brasido reanimado da véspera. Antes, já a Pinta(*) tinha oferecido as suas tetas à carícia das mãos, simultaneamente vigorosas e delicadas, do avozinho. Da fonte inesgotável do úbere do meigo animal brotava diariamente, em jorros, o precioso néctar branco e morno que desjejuava miúdos e graúdos. Anos antes da pasteurização e da desnatação serem processos industriais corriqueiros, esta oblação repetia-se pelo ano fora, ao amanhecer e ao anoitecer, excepto no período imediato ao nascimento de um novo vitelo.
Depois de bebido o leite, com café para os adultos, e de comida uma grossa fatia de sêmea de trigo com queijo, se o havia, e marmelada, o avô cintou-se com a cartucheira e cingiu o velho arcabuz a tiracolo.
Seguimos depois pelos prados fora - o patriarca à frente, o neófito logo colado na peugada - tentando minimizar o ruído único do gelo que se quebrava, a cada passo, sob as botas. A liturgia da caça exigia estes silêncios absolutos para surpreender as presas: uma ou outra perdiz, aquáticas como patos e narcejas, as ocasionais (por migratórias) abecuinhas, às vezes um coelho...
A comunhão perfeita entre os homens e a natureza era, a espaços, subitamente perturbada pelo trovão que saía da boca da caçadeira, em forma de chuva plúmbea, por vezes fatal para a passarada.
Foi a seguir a uma dessas troadas, que feriu de morte uma colorida abecuinha apanhada a pastar despreocupada entre os vinhedos, que eu primeiramente tomei contacto com a morte. Até aqui sempre me haviam ocultado o fenómeno, poupando-me a velórios de vizinhos ou familiares, por meio de invenções várias.
Depois do estrondo, o estúpido pássaro não mais se mexeu. Perante o meu olhar atónito, o avô encorajava-me a cobrar a presa, troféu de caça que mais tarde serviria para conforto do estômago. Ao fim de uns minutos de descrença, automaticamente saindo do transe, aproximei-me pé-ante-pé do pobre bicho e levantei-lhe do chão o cadáver ainda quente. Entre mãos levei-o à presença do avô que assistia, sorrindo, a toda a cena. Naquele momento, desejei a (im)possibilidade de odiar o ceifeiro de vidas, o assassino de pássaros, por detrás do homem. Não! Nem este episódio pôde manchar jamais a imagem imaculada que sempre guardarei do avô.
Cozinhou-se o pássaro e outras presas aladas que, naquele dia, conheceram sorte idêntica sucumbindo à pontaria cada vez mais escassa do velho homem, já que a vista ia acusando o peso dos anos, falindo gradualmente; felizmente para as aéreas o avozinho não mais ser exímio atirador; infelizmente para o próprio e para mim que assistia impotente à degradação natural da carne amada e, por meio destas e doutras vivências, ia percebendo a mecânica subtil da vida.
Dispostos ao redor da mesa, fez-se um invulgar silêncio de morte e, perante a minha recusa em comungar dos pássaros, o avozinho adivinhou finalmente as inquietações do meu espírito de criança. Tentou, em vão, tranquilizar-me, explicando-me o jogo de luz e sombras da vida e da morte, e a atroz engrenagem que faz, de uns, presas e, de outros, predadores.
Não sei se nesse dia aprendi a lição. Sei, isso sim, que o velho homem nunca mais caçou.
(*) a Pinta era uma amiga quadrúpede a quem só faltava, como dizia o avô, o dom da fala. Chamar-lhe aqui vaca seria um insulto para o nobre animal. Outras há não tão nobres e com metade das patas. Mas isso é outra história.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Retalhos da minha aldeia
Lembram-se deste?
Pois bem, a história é simples e seria até hilariante não fora o protagonista um velho amigo de infância. Diagnosticaram-lhe esquizofrenia, toma lá meia dúzia de drunfos para conter as vozes interiores, virou asceta - barba pelo peito, cabelo a ocultar o garrote, sandálias a condizer - e percorre diariamente, sol-a-sol, animado por uma qualquer invisível força interior - as vozinhas outra vez - as ruelas do povoado para estupefacção de uns, temor de outros, desprezo de todos, à passagem de tão volumoso e sinistro vulto.
Ainda agora passou a passos largos ao portão da ti'Alcina, curandeira de renome com créditos firmados até nas aldeias vizinhas, dois "credo em cruz" acompanhados por igual número de benzeduras - protecção divina nunca é de mais num nítido caso de possessão demoníaca como este - e seguiu caminho pelo carreiro da Fonte do Cão acima adentrando-se pelo mato qual bicho acossado por matilha de cães de caça. Só volta ao fim do dia. O que faz nos entretantos permanece um mistério para a populaça e é mote das mais acesas teses defendidas com vigor, inflamado por sucessivos copos de tinto, na taberna do Vadio.
A aldeia é cruel para quem é diferente. Que o diga o Danielzinho, bicha com muito gosto e prazer - o dele, cruzes credo!!! Quando saiu do armário, como é moda agora dizer-se, foi motivo de chacota geral perante o desgosto dos incrédulos progenitores, julgado sumariamente no areópago do Vadio. A mãe talvez já desconfiasse, no seu íntimo, das inclinações do rapaz e, corre à boca miúda, não terá sido alheia à definição sexual, chamemos-lhe assim, da criança já que, desde tenra idade, gostava de lhe vestir trajes de rapariga, que seu ventre até então só parira varões, e este mais novo queria-se menina.
sexta-feira, 18 de março de 2011
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
sábado, 27 de novembro de 2010
Histórias de gente comum I - o Pereira
A notícia caiu-lhe como um murro no estômago.
Dias antes, o seu chefe chamara-o à sua presença com um seco e autoritário "oh, Pereira, quando puder, chegue aqui ao meu gabinete, se faz o favor". Até aqui nada de anormal já que, invariavelmente nos últimos tempos, se procedia a uma espécie de briefing matinal para definir estratégias de acção no seio do departamento comercial. Naquela manhã, porém, algo de sinistramente diferente pairava no ar.
Reunidos à porta fechada no austero espaço, o chefe evitava o olhar do seu interlocutor e, numa lengalenga sem pés nem cabeça, esquivava-se, contornando o assunto.
"Há quantos anos está connosco, oh Pereira?"- curioso como, nestas ocasiões, os chefes falam num plural majestático como se fossem dignitários de uma força maior, pondo-se do lado de lá da barricada.
"Faz em Dezembro 25 anos. Uma vida."
"Como sabe, caro Pereira, os tempos são de desafio e a empresa está a sofrer uma profunda reestruturação motivada pela actual conjuntura macroeconómica. Bom, indo directo ao assunto que nos trouxe aqui: o conselho de administração deliberou proceder à dispensa imediata de alguns colaboradores e o Pereira está incluído nesse lote".
"Deixa-me cá ver se percebi - recapitulou mentalmente o bom do nosso Pereira - despedido! Posto no olho da rua enquanto o diabo esfrega um olho!
Vinte e cinco anos. Vinte e cinco intermináveis anos.
De repente, imaginou a cara de desgosto da mulher e a desilusão estampada nos rostos das miúdas. Como é que iria explicar à mulher, ao chegar a casa, que a empresa, à qual dedicara tantos anos de vida, o dispensava agora com uma palmada nas costas, com sabor a chuto nos fundilhos, e promessas de fundo de desemprego? Sentiu a náusea tomar-lhe de assalto o estômago e o chão fugir-lhe debaixo dos pés numa vertigem crescente. Deixou-se cair desamparado sobre a poltrona - até aí fizera questão de permanecer vertical diante do seu interlocutor - e o chefe, apercebendo-se do quebranto do Pereira e numa réstia de humanidade, apressou-se a servir-lhe um copo de água por entre um "lamento muito".
Viu os 25 anos de carreira passarem diante dos seus olhos numa espécie de flashback regressivo: o entusiasmo do primeiro dia (o mesmo entusiasmo que se foi desvanecendo depois); a entrega apaixonada dos primórdios a qual, com o passar dos anos, foi gradualmente cedendo lugar à acomodação... pensava ter conquistado, por direito próprio, uma posição confortável dentro do departamento comercial. Como estava enganado! Com os olhos rasos de água - não, não me vou permitir chorar e perder a pinga de orgulho que ainda me resta - lamentou o facto de se ter deixado, progressivamente, vencer pelo comodismo e apatia; de não ter comparecido às acções de formação, simpósios, inúmeros cursos e congressos - ultimamente às tão propaladas sessões de coaching das quintas-feiras - que a firma patrocinara no decurso dos anos.
Agora era tarde de mais.
A sirene de uma ambulância distante cortou o frio da noite em uivos sucessivos.
Havia pr'a lá de um par de horas que o nosso Pereira vagueava pelas ruas da cidade na esperança de reunir as forças necessárias para, chegando a casa, encarar a mulher. Na sua cabeça, ensaiou o discurso vezes sem conta de modo a suavizar o peso da triste nova e assim minimizar os danos causados pelo impacto. É que nada fazia adivinhar o sucedido: estava tão certo que a besta do desemprego só batia a porta alheia... convencidíssimo que esta era claramente uma daquelas maleitas que só aconteciam aos outros como se uma invisível capa de imunidade lhe protegesse o seco corpo das balas ferinas da contrariedade.
Sem saber bem como, transportou-se até ao modesto 3º esquerdo onde adquirira o direito de viver contraindo dívida quase vitalícia ao banco; a mesma idónea instituição que anteriormente já lhe emprestara dinheiro para o Corsa comprado em segunda mão mas em muito bom estado, semi-novo, óptima relação qualidade/preço - argumentos esgrimidos freneticamente pelo vendedor; essa mesma corja de sanguessugas sem alma que, sempre que o mês sobrevivia ao salário, se apressava a recordar-lhe "tem a prestaçãozinha atrasada" (como se fosse humanamente possível esquecer, por um só minuto que fosse, tal jugo!).
Duas vezes rodou a chave sobre si própria na ranhura da fechadura. A porta escancarou-se convidando o Pereira a entrar. Encheu os pulmões de ar de tal forma que se sentiu subitamente inebriado pelo abundante fluxo de oxigénio. Depois, atravessou o hall de entrada, pé-ante-pé - pelo adiantado da hora as miúdas estariam já na cama - dirigindo-se à cozinha, onde jazia, no centro da mesa, um prato de sopa já fria. Da mulher, nem sinal. Cansara-se da espera e estava já também na cama.
Sorveu a sopa e pensou conto-lhe amanhã. Afinal tenho agora todo o tempo do mundo.
E, debruçando-se sobre a mesa, recolheu a cabeça entre os braços e começou a chorar.
Qualquer semelhança com a realidade dos dias que correm não é, infelizmente, mera coincidência.
Inicia-se com esta história um ciclo de quadros sobre a vida quotidiana que espero suscitem em quem lê alguma reflexão e se possível salutar discussão através dos comentários.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Untitled
Há qualquer coisa de inexplicavelmente irracional em arrancar-me ao conforto da lareira para enfrentar a noite escura lá fora.
Há algo de escandalosamente errado em privar-me, por vontade própria, da companhia da minha filha de três anos com o fim único de sair porta fora para correr.
Ainda assim vou sem hesitar e levo comigo todo um mundo de palavras, ideias e pensamentos. Correr tornou-se para mim tão profundamente vital como dormir ou alimentar-me. Faz agora parte de mim como o meu próprio nome.

O medo primitivo do escuro, num caminho mais sinistro ladeado de eucaliptos e ciprestes, assalta-me o espírito. A cada exalação, a brisa mentolada e fria fere-me os pulmões espetando-os como agulhas. Ao ouvir o peso das minhas passadas contra o alcatrão, os cães saúdam-me, latindo à minha passagem. Incendeiam-se-me os músculos e a voz rouca de Sir David Gilmour grita-me ao ouvido, ironicamente e em estéreo, you better run!
Estou só. Profundamente só.
As pessoas, dentro dos seus topos de gama devidamente climatizados, apressam-se a regressar a casa depois de mais um dia de trabalho. Ao ver-me, que pensarão? Pouco me importa o quão doido me acham. Ignoram o pouco que é necessário para ser-se feliz.
Naquele tempo em que os meus músculos vencem a distância, em que submeto a estrada à minha vontade férrea, sou livre.
Não há nada de mais puro e ascético que a corrida e tenho cá para mim, correndo o risco de proferir heresia ou blasfémia e consequentemente incorrer em perigo de excomunhão, que se Deus encarnasse novamente seria no corpo de um maratonista queniano.
domingo, 14 de novembro de 2010
Explicações
A minha mulher é um templário deslocado no tempo.
Há dias abraçou a cruzada impossível de dar explicações a um dos garotos aqui da vizinhança.
E o catraio cá vem a casa, todos os dias pela mesma hora, sábado e domingo não são excepção, cabisbaixo e contrafeito, para as explicações de português, matemática e estudo do meio que é como se chama agora ao meio-físico e social do tempo em que também eu era menino de escola.
Por sua exclusiva vontade andaria lá fora, na rua, aos chutos na bola com outros da sua idade.
Ou então, não; preferiria certamente estar a jogar computador ou playstation que os tempos são outros e os adultos de amanhã têm hoje a bola ao alcance da ponta dos dedos nos comandos dos videojogos e assim evitam correr, suar e sujar-se, e os paizinhos agradecem a poupança na conta da água e electricidade na hora de pagar as respectivas facturas. Sim, porque até em termos de consumo eléctrico, os videojogos batem aos pontos, em questões de aforro, a máquina de lavar roupa!!! E assim, para gáudio dos progenitores, os meninos estão cada vez mais mais gordinhos e rosadinhos!!! Mas isto é pano que dava para muito mais que simples mangas; dava para aparelhar uma esquadra inteirinha de naus do tempo das Índias!!!
No outro dia, plantei-me de soslaio a observar a cena: tratava-se do monstro sagrado da conjugação verbal. Em vão, a esforçada explicadora tentava incutir no pupilo interesse pelos diversos tempos verbais do passado: "vá lá, diz-me agora a terceira pessoa do singular do indicativo activo do pretérito-mais-que-perfeito do verbo amar" e o garoto, titubeante, fazia caretas de ignorância perante aquela algaraviada. Vendo o impasse da situação, arranco-me do anonimato da esquina da porta da sala em socorro do apavorado catraio e dou o empurrão inicial: "eu amara... tu amaras..." e lá se foi desfiando, ainda assim hesitante, a lengalenga da conjugação verbal.
"Rapaz, se queres conjugar o futuro tens de primeiro conhecer muito bem o passado" - interpelo-o eu na vã esperança de que a semente do interesse não caia em solo estéril.
No meu tempo (como se costuma dizer por estas bandas), as mestras da escola primária eram adeptas de outras pedagogias, hoje consideradas pouco ortodoxas e porquanto agora em desuso, mas que, à época, produziam inquestionáveis resultados.
A veneranda Dª Albina, verdadeira heroína do povo na minha aldeia - merecedora, na minha modesta opinião, de efígie condigna a erguer (quiçá um dia) no centro do lugarejo - foi uma dessas inflexíveis professoras de escola primária.
Graças aos seus esforços docentes, três gerações aprenderam o bê-á-bá da língua pátria e iniciaram-se nos insondáveis mistérios das matemáticas. Movida certamente mais pela paixão ao ensino do que propriamente pelo salário que auferia (se bem que nesses saudosos tempos este mister era assaz bem remunerado e conferia posição social respeitada e de destaque), movida pela inabalável paixão, dizia eu, que a fazia percorrer de motoreta, todos os dias de manhã - faça chuva ou sol, Inverno ou Verão - os largos quilómetros que a separavam da austera escola, como ainda hoje recorda a minha mãe. Lá dentro estavam já perfilados, à sua espera, impecavelmente aprumados nos seus bibes, dúzias de alunos sedentos de aprender. Nesse tempo, como nós meninos, éramos diferentes dos de agora!
Se bem me lembro, as quartas-feiras eram dia de exercício de ditado cujos erros ortográficos e faltas de acentuação eram severamente punidos pela execução sumária de umas quantas reguadas proporcionais, em número e devoção na aplicação, à quantidade e gravidade daqueles. Havia, porém, uma qualquer indulgência de que já não me recordo. As quartas-feiras eram, portanto, dia de terror generalizado. O aproveitamento escolar de um aluno podia medir-se na inversa medida das reguadas apanhadas ao longo do ano lectivo; quanto menos vezes se tivesse dado, em sentido literal, a mão à palmatória melhor era o aluno. Orgulho-me de ser detentor de um cadastro (quase) imaculado ao longo de toda a escola primária que é o mesmo que dizer que fui um aluno exemplar. E não havia nada de perverso ou sádico nisto; eram as regras do jogo e todos - professores, pais e alunos - as aceitávamos como tal. A professora Albina chegou até, num raro rasgo de sentido de humor, a adornar a férula com uns fios de lã a imitar cabelos e um par de furos equidistantes a fingir olhos, no sentido de amenizar o efeito que a simples observação daquele objecto de castigo provocava em alguns alunos, sem contudo lhe retirar a intrínseca autoridade.
Hoje, é com alguma mágoa que vejo a língua portuguesa, que me é tão querida, ser tão maltratada e os, já de si pouco suficientes, esforços de educadores - pais e professores - malbaratados pela concorrência desleal das omnipresentes televisão e Internet.
Mas nem tudo são espinhos neste vale de lágrimas e há que reconhecer algum mérito a esta geração de actuais alunos: manuseiam, desde o berço, a tecnologia com um à-vontade ímpar e é já vulgar ver putos em idade de escola primária a usarem o inglês, o idioma comum nesta (cada vez mais) aldeia global.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Rabiscos
Abriu os tubos de guache, vagarosamente, um por um - os olhos verde azeitona arregalados de espanto - dispondo as cores no arco-íris portátil da paleta: primeiro o azul, depois o magenta; naquele compartimento o amarelo, ali o verde, um pouco mais de preto...
Com a mãozita trémula, determinada porém, empunhou decidida o pincel e iniciou a pueril criação.
Risquito atrás de risquito, borrão após borrão, o papel foi ganhando cor e formas; uma mancha negra no centro da bizarra tela destacava-se das demais e, por isso mesmo, chamou-me imediatamente a atenção.
- Que mancha negra é essa aí, pipoquinha? - interroguei.
- É um homem, papá! - retorquiu entusiasmada.
Vendo ali uma oportunidade pedagógica sem igual, quis saber mais:
- E porque pintaste o homem de negro? - insisti.
- Porque está nu!
Aproveitei para explicar-lhe que, efectivamente, homens há-os de várias cores e feitios mas todos eles homens de igual direito e despejei mais um chorrilho de verdades la palicianas consagradas na declaração universal dos direitos do homem; tudo isto, diga-se, convenientemente exposto em versão João de Barros de modo a ser inteligível para a criança.
A inocente resposta deixou-me porém pensativo; vi na infantil observação para lá da óbvia alusão à cor da pele. E dei por mim a cogitar que, em verdade, certos homens, quando despidos do aparente polimento que lhes confere a indumentária do dinheiro ou do poder, são negros, tão negros, ou mais, que rabisco de tinta em desenho de criança de três anos. Os seus corações irremediavelmente infestados pela erva daninha do egoísmo, pela moléstia da indiferença, que encontram por estes dias de incerteza húmus favorável à sua disseminação e florescimento. (Inevitavelmente, assomam-me à mente três ou quatro desprezíveis políticos da nossa praça que confundiram serviço público com proveito próprio).
De repente, a minúscula Yorkshire Terrier irrompe desgovernada pelo improvisado atelier semeando o caos e o terror à sua passagem. Tintas e pincéis pelo ar numa inusitada fantasia policroma e, num ápice canino, o quarto vira ele mesmo uma tela gigante.
- Olha o que fizeste, Mia!!! - gritámos em uníssono.
domingo, 20 de junho de 2010
Zapping
A esta hora, a TVE transmite um interessantíssimo programa sobre Portugal tendo como cicerone nada mais que o recentemente falecido Saramago.
Simultaneamente, a TV5 (canal francês) exibe um documentário sobre Jean-Michel Jarre.
Ao mesmo tempo, a RTP transmite o Holanda/Japão. Em diferido.
Acho que está tudo dito.
sábado, 5 de junho de 2010
Memórias de infância
Fui abençoado (e simultaneamente amaldiçoado) com uma memória prodigiosa.
De paquiderme dir-se-ia.
Dos primeiros dias de vida extra-uterina guardo a imagem dos bigodes farfalhudos de meu pai debruçado sobre o berço de pinho crú que era, naquela altura, todo o meu universo; o rosto macilento da minha jovem mãe no vigor dos seus vinte e (muito, talvez demasiado) poucos anos quando me acolhia no seu regaço e oferecia o seu peito desnudo à amamentação do seu precioso rebento.
Quantos sonhos e expectativas depositados no primogénito!
Depois vieram os dias dos tostões contados, do pão duro da véspera - ainda assim pão-nosso de cada dia - os invernos rigorosos amenizados pelo crepitar das castanhas assadas à lareira ouvindo miríades de fábulas da boca do avô.
E o paizinho foi para África ganhar o pão que cá escasseava.
E o bebé deu lugar à criança e o jovem apareceu depois e em pouco tempo fez-se prematuro homem; não por fora, que a biologia reclama o seu tempo, mas por dentro.
Do paizinho regressou, passados alguns anos, apenas o corpo, mais ausente que presente, e uma cabeça débil povoada sabe-se lá por que ultramarinos fantasmas afogados apenas pelo uso, e não raro abuso, da bebida.
Incontáveis as noites em que espiei a minha mãe, sentada na beira da cama, a chorar copiosamente, velando ansiosamente a chegada incerta do meu pai. E finalmente lá vinha o meliante, altas horas da noite, cambaleando embriagado depois de mais uma noite de farra com os amigos. As más companhias, aliás, foram a desgraça do meu pai.
A minha mãe sempre foi a pedra angular da frágil edificação que é a família.
E o rapaz, feito homem à pressa, cresceu alimentando-se da revolta em surdina.
Foi uma infância difícil, de afectos paternais sonegados, e não é pois de estranhar que mal tenha surgido a oportunidade de fuga daquela realidade, o rapaz nem tenha pensado duas vezes.
E a oportunidade tardou mas surgiu da mais inusitada forma.
Num dia morno de primavera, o pároco da aldeia, durante modorrosa homilia, trouxe a lume a questão da vocação sacerdotal.
O bom do clérigo, esgrimindo da mais fina retórica monacal, dirigia-se à assembleia questionando se não haveria na paróquia rapazes, a frequentar o ciclo preparatório, interessados em passar um fim-de-semana no seminário diocesano; à experiência e sem qualquer pesado contrato vitalício que esta coisa da vocação sacerdotal quer-se leve como as plumas dos querubins os quais, como se sabe, tocam trombetas celestiais à direita do Todo-Poderoso.
E a retórica inflamada do padre fez naquela manhã duas vítimas: o meu vizinho, melhor amigo desde tenra idade, e eu.
E numa solarenga tarde de sábado lá fomos os dois cheios de expectativa ao nosso primeiro encontro do pré-seminário.
Impressionou-me de sobremaneira o silêncio daqueles imensos claustros.
Diz-se que Deus fala no silêncio e, naquela tarde, julguei eu na minha lógica infantil, ter ouvido um sussurro...
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Desabafo
O ristorante habitual estava fechado.
De repente, sem qualquer piedoso aviso prévio, a boca melíflua da jovem empregada substituída pelo grotesco Quasimodo de metro e meio da tasca ao lado.
Ora foda-se; dia de descanso do pessoal!
domingo, 30 de maio de 2010
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
A warm hello from the Philippines!!!
Some people despite the years and being thousands of miles away will never forget you. Those are true friends for life.
Just got this deeply touching email which I would like to share with you:
Just got this deeply touching email which I would like to share with you:
Hello ****!
How is the world treating you?
Long time no see, Amico. I wish that you are really enjoying life, my dear friend. One thing is sure, I have never forgotten you.
Without that assistance you extended the last time, still remember that letter? The truth would have not been known in Oslo. And that truth set me free! The tide turned and I got the support of none other than the fleet manager that time. And I earned the respect of all the seniors who was out to destroy me! It is still a big secret, though, about that letter. Believe it or not, it changed the way how we, the chief mates are treated - with respect! I wish to thank you very much, my friend.
I have herewith attached some of your photos taken onboard KCL Banner - which I delivered to Piraeus, Greece, about 2 years ago when she was sold to her new Greek owners.
Have a wonderful and happy week-end!
Long time no see, Amico. I wish that you are really enjoying life, my dear friend. One thing is sure, I have never forgotten you.
Without that assistance you extended the last time, still remember that letter? The truth would have not been known in Oslo. And that truth set me free! The tide turned and I got the support of none other than the fleet manager that time. And I earned the respect of all the seniors who was out to destroy me! It is still a big secret, though, about that letter. Believe it or not, it changed the way how we, the chief mates are treated - with respect! I wish to thank you very much, my friend.
I have herewith attached some of your photos taken onboard KCL Banner - which I delivered to Piraeus, Greece, about 2 years ago when she was sold to her new Greek owners.
Have a wonderful and happy week-end!
Your friend,
SALVADOR
SALVADOR
**** (my real name)
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
O crime do padre Rui
Um homem não é feito de pau apesar de, por vezes, ser de pau feito.
Vem a brejeirice de inquestionável mau-gosto a propósito desta notícia.
Um padre, apesar de homem de Deus por vocação, chamamento ou outra coisa qualquer, é, primeiramente, um homem. E um homem inteiro já que longe vão os tempos veterotestamentários em que o culto se servia de eunucos.
Um padre, apesar de homem de Deus por vocação, chamamento ou outra coisa qualquer, é, primeiramente, um homem. E um homem inteiro já que longe vão os tempos veterotestamentários em que o culto se servia de eunucos.
Depois do badalado caso do padre pistoleiro, profeticamente baptizado de Guerra, no remoto faroeste transmontano, chega-nos agora mais uma novela envolvendo o baixo clero. Desta feita, trata-se da pouco original história de um padreca que, aos primeiros arroubos da paixão carnal (convém distinguir; que outras há - como a de Nosso Senhor), vai de esquecer os votos canónicos e os deveres eclesiásticos e dar de frosques com a sua Hermengarda para parte incerta, deixando paróquias em alvoroço e paroquianos incrédulos. Ficou o rebanho desgarrado pela falta do pastor, violentamente arrancado às suas ovelhas por artimanhas do Amor.
Já revelei aqui que eu próprio fui, há pouco mais de uma década, seminarista diocesano e, por tal, estou especialmente habilitado a abordar o assunto com alguma propriedade.
Meus amigos, isto é o que dá encerrar pré-adolescentes de treze anos de idade na atmosfera contra-natura da clausura de um Seminário, como me aconteceu a mim, por força de circunstâncias diversas que não vêm agora ao caso, e a outros como eu. Pior: nessa época não muito distante, o ambiente vivido nessas instituições de inabalável virtude era de tal forma masculino e masculinizado que os afectos, daqueles que ainda não os tinham bem definidos, eram por vezes canalizados para elementos do mesmo sexo. Alguns ex-colegas, vim a saber, viriam mais tarde a assumir a sua homossexualidade, revelação que, a quem como eu com eles privou, não suscitou a mínima surpresa.
Eu, porém, pertencia ao bem mais colorido e saudável grupo dos que ludibriavam pulsões adolescentes às custas de imaginar aqueles dois montículos proeminentes de carne que pulsavam, na cadência ritmada da respiração, debaixo da blusa da Margarida. A Guidinha era uma empregada da casa, no vigor dos seus dezoito ou dezanove anos, um pouco mais velha que a maior parte de nós portanto, que auxiliava as Irmãs (freiras entenda-se) nas lides da cozinha ou da lavandaria e cumpria simultaneamente, ainda que desconhecendo-o ou talvez não, a nobre e altruísta função de, como se disse, alimentar imaginários pueris. E a malta gostava de sobremaneira da Guida e do que esta representava para nós. Estas imaginações, julgo eu que nunca passaram disso mesmo já que a moça dava-se muito ao respeito, amenizavam o nosso sério quotidiano juvenil passado entre estudo, oração, desporto e outras tarefas próprias da casa.
No meu último ano de Seminário Menor, o 12º lectivo, o Sr. Bispo e o Sr. Reitor, num raro rasgo visionário, decretaram que a instituição iria transitar de um regime exclusivo de internato para um regime mais aberto, com recurso a aulas no exterior numa das escolas secundárias da cidade, num gesto que teve tanto de progressista como de economicista já que o decrescente número de alunos não justificava mais os encargos pesados de manter um corpo docente próprio. Foi como atirar cordeirinhos para o meio dos lobos. E das lobas.
Tudo isto a propósito do jovem presbítero desertor que, apesar de alguma distância temporal, deve ter tido uma vivência semelhante à minha, já que a Santa Igreja Católica mede o tempo em séculos e por isso é tão resistente às mudanças que os tempos exigem e assim parece irremediavelmente condenada a apanhar sempre a última carruagem do comboio do progresso.
Colhe a minha simpatia o jovem padre que, no recato do Seminário, deve ter lido Zola, Herculano e Queiroz, o que lhe terá certamente acicatado um espírito romântico já de si fecundo em devaneios amorosos. Teve ainda a decência, o clérigo, de pedir permissão de namoro aos pais da amada, coisa antiga só mesmo de padre, e, perante a negativa destes, não teve outro remédio senão enveredar pela menos airosa via da fuga. Ressalve-se que tudo foi feito na legalidade da recente maioridade da rapariga. É que Deus, na Sua infinita generosidade, perdoa estas e outras falhas. Os homens é que talvez não.
Já revelei aqui que eu próprio fui, há pouco mais de uma década, seminarista diocesano e, por tal, estou especialmente habilitado a abordar o assunto com alguma propriedade.
Meus amigos, isto é o que dá encerrar pré-adolescentes de treze anos de idade na atmosfera contra-natura da clausura de um Seminário, como me aconteceu a mim, por força de circunstâncias diversas que não vêm agora ao caso, e a outros como eu. Pior: nessa época não muito distante, o ambiente vivido nessas instituições de inabalável virtude era de tal forma masculino e masculinizado que os afectos, daqueles que ainda não os tinham bem definidos, eram por vezes canalizados para elementos do mesmo sexo. Alguns ex-colegas, vim a saber, viriam mais tarde a assumir a sua homossexualidade, revelação que, a quem como eu com eles privou, não suscitou a mínima surpresa.
Eu, porém, pertencia ao bem mais colorido e saudável grupo dos que ludibriavam pulsões adolescentes às custas de imaginar aqueles dois montículos proeminentes de carne que pulsavam, na cadência ritmada da respiração, debaixo da blusa da Margarida. A Guidinha era uma empregada da casa, no vigor dos seus dezoito ou dezanove anos, um pouco mais velha que a maior parte de nós portanto, que auxiliava as Irmãs (freiras entenda-se) nas lides da cozinha ou da lavandaria e cumpria simultaneamente, ainda que desconhecendo-o ou talvez não, a nobre e altruísta função de, como se disse, alimentar imaginários pueris. E a malta gostava de sobremaneira da Guida e do que esta representava para nós. Estas imaginações, julgo eu que nunca passaram disso mesmo já que a moça dava-se muito ao respeito, amenizavam o nosso sério quotidiano juvenil passado entre estudo, oração, desporto e outras tarefas próprias da casa.
No meu último ano de Seminário Menor, o 12º lectivo, o Sr. Bispo e o Sr. Reitor, num raro rasgo visionário, decretaram que a instituição iria transitar de um regime exclusivo de internato para um regime mais aberto, com recurso a aulas no exterior numa das escolas secundárias da cidade, num gesto que teve tanto de progressista como de economicista já que o decrescente número de alunos não justificava mais os encargos pesados de manter um corpo docente próprio. Foi como atirar cordeirinhos para o meio dos lobos. E das lobas.
Tudo isto a propósito do jovem presbítero desertor que, apesar de alguma distância temporal, deve ter tido uma vivência semelhante à minha, já que a Santa Igreja Católica mede o tempo em séculos e por isso é tão resistente às mudanças que os tempos exigem e assim parece irremediavelmente condenada a apanhar sempre a última carruagem do comboio do progresso.
Colhe a minha simpatia o jovem padre que, no recato do Seminário, deve ter lido Zola, Herculano e Queiroz, o que lhe terá certamente acicatado um espírito romântico já de si fecundo em devaneios amorosos. Teve ainda a decência, o clérigo, de pedir permissão de namoro aos pais da amada, coisa antiga só mesmo de padre, e, perante a negativa destes, não teve outro remédio senão enveredar pela menos airosa via da fuga. Ressalve-se que tudo foi feito na legalidade da recente maioridade da rapariga. É que Deus, na Sua infinita generosidade, perdoa estas e outras falhas. Os homens é que talvez não.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Adivinha
Que pássaros desengonçados são aqueles pendurados no ar?
Caricato bicho este que se planta agora mais nitidamente diante dos meus olhos, à medida que me aproximo, em caterva de vinte ou mais. Costuma ocasionalmente colorir estas paragens com o seu casaco de plumas a la Moulin Rouge aquando da sua peregrinação anual à Meca dos pássaros, mais a Sul.
A julgar pela aparência invulgar deve ter aguardado a distribuição do sopro divino entre a girafa de pescoço altivo e a pernalta avestruz. Digo isto porque, à primeira vista, herdou da primeira a longuidão que lhe suporta a cabeça onde impera um bico aquilino, adunco portanto, e da segunda as gâmbias altas que sustentam o todo.
Estas maravilhas aconteceram ao quinto dia da Criação, como é de conhecimento geral pois assim rezam as Sagradas Escrituras, tendo o Criador, por compreensível falta de tempo ou por, de tanto insuflar, Lhe ter faltado a inspiração, tirado a pinta de uns bichos pelos outros.
Mas já nos adentramos perigosamente nos lodosos pântanos da invenção que nestes factos de pormenor é o Génesis omisso.
As pernaltas ensaiam agora, subitamente, uma coreografada aterragem, criando um bizarro bailado de asas e pernas. Nem uma dúzia de Nureyevs (requiesciat in pace ad aeternum) conseguiria semelhantes prodígios de sincronia! Depois, de cabeças enterradas na água salobra, pastam, em vagares de todo o dia, indiferentes ao formigar matinal dos homens que, como eu, se dirigem apressadamente para o trabalho.
Invejo a sina programada desta sorte de bichos.
A julgar pela aparência invulgar deve ter aguardado a distribuição do sopro divino entre a girafa de pescoço altivo e a pernalta avestruz. Digo isto porque, à primeira vista, herdou da primeira a longuidão que lhe suporta a cabeça onde impera um bico aquilino, adunco portanto, e da segunda as gâmbias altas que sustentam o todo.
Estas maravilhas aconteceram ao quinto dia da Criação, como é de conhecimento geral pois assim rezam as Sagradas Escrituras, tendo o Criador, por compreensível falta de tempo ou por, de tanto insuflar, Lhe ter faltado a inspiração, tirado a pinta de uns bichos pelos outros.
Mas já nos adentramos perigosamente nos lodosos pântanos da invenção que nestes factos de pormenor é o Génesis omisso.
As pernaltas ensaiam agora, subitamente, uma coreografada aterragem, criando um bizarro bailado de asas e pernas. Nem uma dúzia de Nureyevs (requiesciat in pace ad aeternum) conseguiria semelhantes prodígios de sincronia! Depois, de cabeças enterradas na água salobra, pastam, em vagares de todo o dia, indiferentes ao formigar matinal dos homens que, como eu, se dirigem apressadamente para o trabalho.
Invejo a sina programada desta sorte de bichos.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Os pianos são eternos
O velho piano de cauda reinou, soberano, sobre o rés-do-chão da centenária casa durante mais de duzentos anos.Pela dentadura intercalada de ébano e marfim das suas oitavas haviam-se passeado, neste intervalo de tempo, os dedos de sucessivas gerações, para gáudio e entretenimento de miúdos e graúdos, que assim matavam a monotonia nas soirées das invernosas noites de outrora promovidas pelos anfitriões da vetusta casa.
Misteriosa e exemplar irmandade esta das teclas do piano, que, apesar da radical diferença, em tamanho, cor e som, colaboram eterna e harmoniosamente para deleite dos sentidos. Fossem assim os homens, pretos e brancos, altos e baixos, e a música do mundo seria certamente melhor.
Misteriosa e exemplar irmandade esta das teclas do piano, que, apesar da radical diferença, em tamanho, cor e som, colaboram eterna e harmoniosamente para deleite dos sentidos. Fossem assim os homens, pretos e brancos, altos e baixos, e a música do mundo seria certamente melhor.
O piano vestia-se agora de luto e a sua pintura, de um verniz preto resplandecente nesses tempos idos, quase espelho, estava agora baça e amarelecida pela inclemência do tempo.
Irremediavelmente votado ao esquecimento num canto da ampla sala, havia sido gradualmente substituído, no coração dos habitantes, primeiramente pela muito mais apelativa televisão, caixa mágica que prometia revolucionar o mundo, e, mais recentemente, pelos sofisticadíssimos computadores e consolas que entregavam aos olhos rendidos do utilizador admiráveis mundos de polícroma fantasia.
A nave do tempo também não reservou espaço à sobriedade do fraque do pianista que, unido outrora por mãos e pés ao fiel instrumento musical numa espécie de prolongamento do seu próprio corpo, alheio a tudo em seu redor como que numa espécie de transe hipnótico, acariciava as teclas brancas e pretas do fiel companheiro, ora célere e vigoroso, ora vagaroso e delicado, consoante as exigências do mapa da partitura.
Os primos afastados do nobre instrumento de corda percutida, sintetizadores e órgãos electrónicos, viram na revolução dos tempos oportunidade de expansão e disseminaram-se um pouco por toda a parte pontificando agora, de igual modo, em sóbria Sé-catedral ou em psicadélicas bandas rock. Estranha sina esta em que um mesmo instrumento serve fins tão díspares.
O tempo, porém, não traiu a herança genética do velho piano e os seus primos continuam a ostentar orgulhosos, ainda hoje, a mesma dentadura alva e negra do ancestral.
O nosso fiel amigo é que, divorciado agora de Schubert ou Chopin, ainda cumpre os seus desígnios de piano soltando esporadicamente, pelo menos sempre que alguém lhe deixa inadvertidamente a boca aberta e a gata de pelagem manto de neve se passeia languidamente sobre os seus dentes, uns grunhidos quase imperceptíveis de bemóis ou sustenidos, já sem a limpidez de antigamente que a idade e a falta de afinação não se compadecem nem dos velhos pianos.
Urdido (à pressa) para o desafio "Preto & Branco" da Fábrica de Letras
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Assim vai o jardim à beira-mar plantado
[...] E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro - o que d'Ela receberei em muita mercê.
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.
Pêro Vaz de CaminhaNão sabemos se o visionário rei D. Manuel, o primeiro do nome na tabela real, como diria o outro, acedeu ao pedido do escrivão e tomou as diligências necessárias para fazer vir de São Tomé o tal de Jorge Osório, genro do pedidor. Sabemos, isso sim, que esta inocente petição ficou, através da importância histórica óbvia de que se revestiu a carta, registada para a posteridade e ainda hoje é vista pelos lusófonos do outro lado do Atlântico como o primeiro caso documentado de nepotismo em terras de Vera Cruz. O pedido de Caminha, serve, ainda hoje, como brocardo para justificar a, por vezes muito pouco, ética pública brasileira e é tido como uma espécie de primitiva herança lusa que terá marcado indelevelmente, por toda a eternidade, os genes brasileiros. Até aqui tudo muito bem, não fora o caso de nepotismo não ser nada disto.
Não querendo tomar em mãos o papel da defesa histórica de Caminha, parece-nos que o último parágrafo da sua carta ilustra uma outra característica do Português, imutável, pelo que se está aqui a ver, per omnia saecula saeculorum. Estamos, claro está, a referir-nos à tão portuguesa cunha. Da multiplicidade de particularidades que constituem a idiossincrasia do Português esta será, quiçá, uma das mais evidentes e fáceis de comprovar nas vivências do dia-a-dia. Acontece repetidamente diante dos nossos olhos, de uma forma mais ou menos desvelada, e, se amiúde é inócua apesar de moralmente criticável (quem for santo que atire a primeira pedra), outras vezes reveste-se de alguma gravidade mormente quando possa lesar interesses doutrem ou de todos, estando em jogo a coisa pública.
Nas altas esferas políticas e empresariais, a cunha reveste-se do nome mais pomposo, para prática igualmente reprovável, de tráfico de influências; a trampa é a mesma, o odor diferente, diria assim o povo ou diria diferente, doutro modo que aqui, por delicadeza, não nos atrevemos a reproduzir. Fica ao critério e imaginação de quem está desse lado, que certamente não haverá míngua destes em quem nos segue.
E, se há contrapartidas patrimoniais ou pecuniárias nestas autênticas cadeias de tráfico de favores, através de suborno, o fenómeno passa a chamar-se globalmente de corrupção, activa ou passiva, consoante sé é corruptor ou corrompido; corruptos porém em ambos os casos.
Para finalizar este breve glossário de termos falta-nos abordar o lobby. Em alguns países, como nos Estados Unidos, encontra-se perfeitamente regulamentado e é até tomado como profissão. Noutros, como Portugal, a coisa está ainda numa fase embrionária e poderá ser facilmente confundida na névoa da corrupção. Diríamos que o lobby, como se pratica nos EUA, é o acto de certos indivíduos ou grupos organizados fazerem pressão, junto dos decisores políticos e legisladores, em favor de determinados interesses.
É do conhecimento geral que a corrupção anda de braço dado com a pobreza, extrema, dir-se-ia, na maioria dos países do hemisfério sul.
E se, quando os corrompidos se deixam corromper por ser esta forma única de conseguir alimento diário para o estômago, para o seu e para o dos seus, o fenómeno, apesar de continuar a ser moralmente reprovável, passa automaticamente a ser desculpável ou perdoável, que a necessidade aguça o engenho, já tal visão complacente ou perdulária não se poderá ter, acontecendo idêntico a quem já tem de sobra.
A segunda ocorrência deu-se, ao que tudo indica, que todo o inocente o é até prova do contrário, e assim indicam apesar de suprimidas como prova algumas das escutas telefónicas, no badalado caso Face Oculta, com o ex-ministro socialista (convém relembrar em quem confiamos, quer queiramos quer não, as rédeas do nosso destino colectivo) Armando Vara. Se o crime é condenável, porém desculpável, num pobre que rouba para a boca, como atrás se disse, já se praticado por gestor de alta finança, que aufere dos gordos vencimentos e opíparas regalias que lhe conferem a posição, assume contornos de especial repugnância entre a opinião pública. Fará deste um caso exemplar a muito desacreditada justiça portuguesa ou, por outro lado, acabará tudo em pizza, como dizem os nossos irmãos do outro lado do Atlântico? Aguardam-se cenas dos próximos capítulos nos dias que se seguem.
Quem teria a ganhar com a publicidade gratuita cada vez que o nome Face Oculta é referido nos meios de comunicação, seria a respeitável Dona Isilda, madame de reconhecidos méritos, fundadora da casa de diversão nocturna que empresta o nome ao processo por alegadamente ter servido de tecto - e não só, acrescentamos nós - na calada da noite a alguns dos arguidos no processo judicial, não se desse porém o caso do prostíbulo, digo, boîte, ter entretanto cedido lugar e posição a um bar alegadamente LGBT com diferente onomástica e distinta gerência. Lamentável falta de visão, de uns e de outros, antigos e actuais proprietários.
sábado, 14 de novembro de 2009
A estrada da vida
Quis Deus ou o Diabo, ou quiseram ambos, que do estranho medir de forças entre estes dois resulta a inércia que anima todos os corpos celestes e, deste modo, mantém também a grande bola azul em contínua revolução e assim se cria o equilíbrio que permite que se desenvolva, à sua superfície, a intrincada trama do teatro humano, mas, dizíamos, quis Deus ou o Diabo, que, esta noite, escura como o breu que lhe dá cor, carvão diluído pela pluviosidade abundante, servisse de cenário a um dos infelizmente muitos, demasiados, episódios trágicos que acontecem diariamente nas estradas nacionais, como a seguir passamos a contar para que este relato, ainda que fictício porque fruto tão-só da mente do relator, ainda assim, pelos motivos acima expostos, perfeitamente verosímil, provoque, em quem o vier a ler, alguns momentos de reflexão, intenção ambiciosa a que nos propomos e que se conseguida, num leitor apenas que seja, por muito felizes nos daremos, pois então terá sido alcançado o efeito desejado.
De cima para baixo seguia um automóvel, meio locomotor, por prático e cómodo, de uma vulgar família de classe média, se é que ainda há destas nos tempos que correm, sim, que as agruras e dificuldades destes tempos de agora ditam que se cave cada vez mais o fosso entre ricos e pobres, sendo cada um dos quais, pobres e ricos, cada vez mais aquilo que são e não havendo assim lugar para meio termo em coisa alguma. Deixemo-nos, porém, por agora, destas considerações ainda que muito, a este respeito, houvesse a considerar.
Retomando o relato no ponto em que o deixámos, refira-se que, em direcção oposta, ou seja, de baixo para cima, um outro veículo, cujo tripulante único ronda, em idade, uns inconscientes vinte anos, traga avidamente os quilómetros do febril trajecto de sábado à noite que desemboca invariavelmente numa qualquer discoteca ou bar da zona. Ignorantes uns do outro e desconhecedor este daqueles, por indústria de alguma das forças antes mencionadas ou de ambas, como de igual modo se aventou hipótese, interceptam-se, num cotovelo revolto de estrada, em aparatosa colisão frontal. Num segundo, tinge-se de encarnado o preto asfáltico pelo grosso sangue derramado por ocupantes de um e de outro veículo, em macabra cena de ferrarias retorcidas. Faz-se subitamente silêncio e este vácuo sonoro não augura nada de bom. Num instante o fio da vida é drasticamente interrompido. Subitamente, neste teatro de interacções da existência, actores secundários passam a desempenhar papéis principais, ou fundamentais, ou decisivos, no filme de outras existências e isto pode acontecer a qualquer um num virar de esquina, no tempo que leva um piscar de olhos.
E nós, que há não muito tempo tivemos uma vintena de anos, aprendemos que ninguém tem o direito de entrar de actor, do modo acima descrito, em película de vida alheia. Coibimo-nos tantas vezes de irromper na vida dos outros em coisas incomensuravelmente mínimas, à mesa do café ou quando nos cruzamos na rua, não vá dar-se o caso de se pensar que somos intrometidos, desejosos, no íntimo, do calor e afecto de uma palavra afável de atenção, de um simples bom-dia, ansiosos, por vezes até, que o outro repare em nós, estou aqui, e assim torne a solidão a que irremediavelmente fomos votados desde o dia em que nascemos, sozinhos nascemos e sós morreremos, menos insuportável, menos absurda, tomemos, pois então, as cautelas necessárias, e todas serão sempre poucas, para suprimir o episódio do sinistro automóvel da novela da nossa vida.
E isto já está a tomar rumos de homilia, e a nós ninguém nos encomendou o sermão, mas aflige-nos, cansa-nos até, o desperdício diário de vidas humanas, projectos e sonhos, relatado pelos jornais e televisões e assusta-nos, enquanto utilizadores das vias rodoviárias, o risco a que amiúde, só por rodar uma simples chave de ignição auto, nos submetemos.
Não se pense que, nesta história, o vilão é o jovem de vinte anos que seguia para a discoteca, que nada temos nós contra este, cuja condição também partilhamos, nem contra o propósito da sua viagem. Apenas nos queremos dirigir a esta faixa etária que também, repetimos, é a nossa, já que, estatisticamente, é a mais afectada pelo problema.
De cima para baixo seguia um automóvel, meio locomotor, por prático e cómodo, de uma vulgar família de classe média, se é que ainda há destas nos tempos que correm, sim, que as agruras e dificuldades destes tempos de agora ditam que se cave cada vez mais o fosso entre ricos e pobres, sendo cada um dos quais, pobres e ricos, cada vez mais aquilo que são e não havendo assim lugar para meio termo em coisa alguma. Deixemo-nos, porém, por agora, destas considerações ainda que muito, a este respeito, houvesse a considerar.
Retomando o relato no ponto em que o deixámos, refira-se que, em direcção oposta, ou seja, de baixo para cima, um outro veículo, cujo tripulante único ronda, em idade, uns inconscientes vinte anos, traga avidamente os quilómetros do febril trajecto de sábado à noite que desemboca invariavelmente numa qualquer discoteca ou bar da zona. Ignorantes uns do outro e desconhecedor este daqueles, por indústria de alguma das forças antes mencionadas ou de ambas, como de igual modo se aventou hipótese, interceptam-se, num cotovelo revolto de estrada, em aparatosa colisão frontal. Num segundo, tinge-se de encarnado o preto asfáltico pelo grosso sangue derramado por ocupantes de um e de outro veículo, em macabra cena de ferrarias retorcidas. Faz-se subitamente silêncio e este vácuo sonoro não augura nada de bom. Num instante o fio da vida é drasticamente interrompido. Subitamente, neste teatro de interacções da existência, actores secundários passam a desempenhar papéis principais, ou fundamentais, ou decisivos, no filme de outras existências e isto pode acontecer a qualquer um num virar de esquina, no tempo que leva um piscar de olhos.
E nós, que há não muito tempo tivemos uma vintena de anos, aprendemos que ninguém tem o direito de entrar de actor, do modo acima descrito, em película de vida alheia. Coibimo-nos tantas vezes de irromper na vida dos outros em coisas incomensuravelmente mínimas, à mesa do café ou quando nos cruzamos na rua, não vá dar-se o caso de se pensar que somos intrometidos, desejosos, no íntimo, do calor e afecto de uma palavra afável de atenção, de um simples bom-dia, ansiosos, por vezes até, que o outro repare em nós, estou aqui, e assim torne a solidão a que irremediavelmente fomos votados desde o dia em que nascemos, sozinhos nascemos e sós morreremos, menos insuportável, menos absurda, tomemos, pois então, as cautelas necessárias, e todas serão sempre poucas, para suprimir o episódio do sinistro automóvel da novela da nossa vida.
E isto já está a tomar rumos de homilia, e a nós ninguém nos encomendou o sermão, mas aflige-nos, cansa-nos até, o desperdício diário de vidas humanas, projectos e sonhos, relatado pelos jornais e televisões e assusta-nos, enquanto utilizadores das vias rodoviárias, o risco a que amiúde, só por rodar uma simples chave de ignição auto, nos submetemos.
Não se pense que, nesta história, o vilão é o jovem de vinte anos que seguia para a discoteca, que nada temos nós contra este, cuja condição também partilhamos, nem contra o propósito da sua viagem. Apenas nos queremos dirigir a esta faixa etária que também, repetimos, é a nossa, já que, estatisticamente, é a mais afectada pelo problema.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
THE KING IS NAKED
The King is naked, dressed in nothing but delusion! Vain and ego-bloated, he holds the world in confusion. Yet in his court, not one soul da...
-
Quem me dera viver de novo a insónia nervosa das vésperas do exame de condução; sentir a satisfação incontida do prazer de guiar o meu prime...
-
Diz-se que o homem é um animal de hábitos e nisto sou muito homem. Como toda a gente, tenho os meus (que, neste caso e contrariamente ao af...
-
O meu avô materno foi um gigante que errou por este mundo de joelhos. Há pessoas assim, discretos colossos maiores que a vida, e depois h...

