segunda-feira, 16 de março de 2026

PIQUENIQUE EXCOMUNGADO


Penalva já não tem castelo.
Mas ainda é terra de gente devota;
De fé, orgulhosa e cheia de zelo.
Povo beirão, digno de nota.
Ora ouçam co' atenção e fervor
A história que passo a contar:
Tarde de domingo, dia do Senhor,
Depois de muito palmilhar.
No adro da igreja local
Duas mesas de granito,
Local aprazível, ideal,
Pr'a festim de gabarito.
Refeição improvisada,
Pão e vinho, união.
Conversa muito animada,
Copo cheio na mão.
E eis que, de repente, vinda do nada,
Mandatada pl'o covarde prior,
Entra em cena beata indignada,
Fazendo-nos temer o pior.
Cruzada com clara missão:
Os comilões do templo expulsar!
Que aquele adro -
Local de culto, chão sagrado -
Não é lugar,
De humana comunhão!
"Vade retro, pecadores! Fora do templo!"
Clama a beata, transida de horror.
"Que o vosso repasto é mau exemplo,
Ofensa grave a nosso Senhor!"
E assim fomos, barriga cheia, alma lavada,
Corridos do adro... pela guarda avançada!

segunda-feira, 9 de março de 2026

PROFISSÃO DE FÉ


Carrego a dúvida por credo.
A incerteza, bandeira arvorada.
Oh, desdenho o vosso absoluto!
Que há muito vivo neste luto,
Nesta imutável madrugada,
(Prenhe de pez e odor a medo)
De morrer sabendo nada.
Paladino de mim mesmo,
Pugno só pela única verdade:
A de que vimos a este mundo
Pr'a viver em liberdade!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

PROMETHEUS


The darker it grows, the clearer one sees.
Up! Up, towards the light!
From the well's bottom, one must rise,
When there's nothing left to hide.
Bare naked, ripped apart...

Your love reignites the long-lost flame,
A tiny spark of hope in the pitch-black night,
Cutting through uncertainty, despair, and shame...
Carrying me back to sunshine.

From the shattered wreckage, you made me a whole man... again.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

PRECE

Quando era novo abraçava ideais sem fim.
Prenhe de sonhos, almejava o impossível:
Conseguir, um dia, mudar o mundo!
Cronos seguiu seu curso, cruel e impassível...
Hoje suplico, derrotado e gemebundo:
Deus, que o mundo não me mude a mim!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

*AURORA*


Da minha janela testemunho mais um dia a romper.
O recorte das árvores e casas, quais fantasmas,
A desenharem-se gradualmente na bruma do amanhecer.
Ao redor, o negrume ainda pesa, frio e profundo,
Enquanto a luz, a medo, vem despertar o mundo.
Ao longe, um galo tímido, cacarejando anuncia,
Quebrando o silêncio, o começo de um novo dia.
Nos primeiros feixes de luz a promessa renovada,
E toda a bicharada em coro grita: alvorada!!!
Agora, os primeiros sinais de frenesim humano:
A ronda diária do padeiro a distribuir o pão,
Repete-se dia após dia, incansável, ao longo do ano.
Além, os homens do lixo empoleirados no seu camião,
Prestam, invisíveis e discretos, um serviço fundamental.
(Não fora assim, afogar-nos-íamos na própria matéria fecal!)
E na contemplação desta engrenagem, esboço um esgar…
Sonolento, jazendo ainda no conforto do meu leito,
Oh, reles condição humana: estou à rasca pr'a mijar!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

 O discurso de ódio - radical, fundamentalista, disparado em todas as direcções contra tudo e todos - está, a meu ver, a autofagiar-se paulatinamente. Vive do próprio medo que inculca e grassa no terreno fértil da ignorância mas, no limite, acabará por morder a mão daqueles que o alimentam. É que, na linha de Rosseau, quero acreditar que as pessoas são intrinsecamente boas.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

UMA ESPÉCIE DE ODE

A nós, os que sentimos de mais!
Que nos entregamos sem reservas,
(Oh, maldita Afrodite e suas servas!)
Atropelando convenções e sinais...

Não há longe, nem distância, 
ou qualquer outra circunstância,
que impeça o amor de dois mortais!

Enovelados, dois corpos feitos um só,
Jazem sobre o leito em êxtase carnal.
Uma massa informe, vinho, pele, suor...
Lá fora, indiferente, o mundo real.

Porém, eis-me agora aqui no castelo altaneiro da minha solidão!
Reduto último da minha insignificância.

PIQUENIQUE EXCOMUNGADO

Penalva já não tem castelo. Mas ainda é terra de gente devota; De fé, orgulhosa e cheia de zelo. Povo beirão, digno de nota. Ora ouçam co...