sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A taberna

Gosto do ambiente boémio e decadente que ainda se respira em certas tascas.
Há uma dessas, aqui nas proximidades, onde invariavelmente entro todas as sextas-feiras, ao final da tarde, para jogar no Euromilhões, na esperança vã que a sorte me favoreça e me arranque a este rame-rame de proletário. Estou irmanado nesta ambição com milhares por essa Europa fora.

Hoje não foi excepção. Ao entrar na dita, deparo de imediato com um conhecido em nítido avançado estado de etilização (o que equivale a dizer podre de bêbado). Sempre gostei de pessoas excêntricas pelo que simpatizei de imediato com este tipo quando, há já algum tempo atrás, me foi apresentado. Trata-se, claramente, duma dessas almas errantes que navegam à deriva pelos conturbados mares da existência. Muitos, certamente, nem sequer darão conta da sua passagem e alguns, de entre os poucos que darão conta, dirigir-lhe-ão reprovadores acenos de cabeça como se fossem moralmente intocáveis. Eu, porém, gosto daquele gajo. E é um gostar feito de compaixão.
Fulano já avançado na casa dos 40, dele sei que perdeu a mãe para a doença muito cedo, demasiado cedo, episódio traumático que já me confessou, num dia de bebedeira, nunca ter ultrapassado. Ficou depois entregue aos cuidados de um pai alcoólatra, cuja única herança terá sido, talvez, a nefasta dependência. Mulheres, conheceram-se-lhe poucas; os íntimos (que não é o meu caso) recordam apenas um romance mais sério abandonado covardemente no altar. Doutro modo não poderia ser em alguém cujo ideal feminino tem como bitola a imagem imaculada da sua própria mãe. Assim, deixou-a especada no altar ante um padre mudo e uma legião de convidados boquiabertos. A ousadia granjeou-lhe um agravamento na já depauperada relação com o pai.

Juntei-me ao grupo de bebedores e, para não destoar, ordenei ao tasqueiro que me servisse uma lambreta (copo de capacidade mais reduzida que o tradicional fino de que, só hoje, tomei conhecimento). O álcool, quando tomado na proporção exacta, é um óptimo lubrificante para o cérebro e auxilia na fluidez do pensamento.

Lembrou-me, este inusitado quadro, uma tasca do meu fugaz período coimbrão, situada ali perto da Sé Nova, se a memória não me atraiçoa, mais concretamente, junto ao Museu Machado de Castro. Chamava-se O Pinto, em homenagem ao proprietário, casa com direito a bizarra heráldica esculpida num tampo de pipa, onde se podiam encontrar, espalhados por meia dúzia de maciças mesas de carvalho, grupos de estudantes bastante etilizados lado a lado com velhos entretidos a matar o tempo entre mãos sucessivas de lerpa. Volta e meia, por entre os humores do vinho rasco, vendido a copo por meio tostão, como a estudante pobretana convém, discutia-se filosofia, teologia, gnoseologia, epistemologia e outras obscuras ciências humanas acabadas em -ia. Outras vezes não se discutia absolutamente nada, tal era a náusea e a eminência do vómito. Outras vezes ainda, cantava-se ao som da guitarra; novos e velhos, estudantes e não-estudantes, a uma só voz.

Quem por lá passou (por esta ou por outra), saberá certamente do que falo. É que, hoje, cheirou-me às saudosas tascas da minha juventude.

25 comentários:

Sairaf disse...

Olá Demóstenes,
senti a presença da saudade tocar nos seus tempos universitários.

Belos tempos boémios (os meus), ainda ontem passei na tasca onde ficava até o sol beijar o rio arade, onde as conversas acabavam sempre de forma carnal ou então a desenhar sabe-se lá o quê.

Sincero abraço
Sairaf

Demóstenes disse...


Sairaf,

Os tempos de estudante são mesmo o melhor período das nossas vidas.

Obrigado pela visita.

Carmo disse...

Demóstenes sou uma eterna estudante por natureza, gosto de tertúlias, de conversar até os olhos não aguentarem mais, de declamação de poesia. E continuar a ser estudante dá-nos a ilusão de uma certa juventude. Só ilusão...

Beijinhos

carmo

maria teresa disse...

Vivemos em mundos paralelos...
Frequento tertúlias mas sem alcóol, sem tabaco, mas com muita discussão, muita alegria, muita amizade,... sem medo de se envelhecer, sem saudosismos, sem cenas deprimentes, sem necessidade de sentirmos compaixão...

Demóstenes disse...


Maria Teresa,

Como gostava de viver nesse seu mundo ideal (a meu ver, quase utópico)!

A compaixão, na sua essência, é o mais nobre dos sentimentos! Pena que o sentido da palavra tenha sido desvirtuado.

(já agora álcool)

Demóstenes disse...


Carmo,

Bem-vinda, antes de mais!!!

Eu gosto de observar. Segundo aprendi nas longínquas aulas de ciências naturais é o primeiro passo do método científico.

A juventude é um estado de espírito:
Há anciãos jovens e jovens envelhecidos.

maria teresa disse...

Agradeço a correcção do "álcool" feita de um modo tão discreto, tão subtil, estamos 1-1 com o "digladiar-se".
O meu mundo é real, todos lá podem entrar, desde que largem esses prazeres tão apregoados, o álcool, o tabaco, a droga... no meu mundo também se sofre, se chora, se ri, se reclama,se ama, ... mas fazemo-lo sem os sentidos estarem embotados pouco despertos para sensações reais.
Quem desvirtuou a compaixão? eu não fui...

maria teresa disse...

Larguem 2-1

Demóstenes disse...


Maria Teresa,

Acredita que só hoje me apercebi do erro em digladia-se!?

Obrigado! (também nisto é enriquecedora a partilha blogosférica)

E desculpe a subtileza de elefante em debandada.

My bad.

S* disse...

Eu gosto de tascas de comes e bebes... das moelas, das sandes e das coisas boas. Agora beber... nah...


Escreves bem. Gosto.

Eva Gonçalves disse...

Gostei particularmente deste saudosismo exposto... também gosto de tascas , e das pessoas que as frequentam. São pessoas reais, sem máscara...(talvez por isso mesmo, frequente um café modesto pelos mesmos motivos) e percebo-te perfeitamente quanto à compaixão...é nobre mesmo. É a empatia dos terapeutas... a capacidade de compreender e de nos pôr no lugar do outro, reconhecendo os seus problemas e desejando que fosse tudo mais fácil...
E mais... gosto mais de te ler assim.
Quanto ao rock moderno, who's to say, I don't keep track? :)
beijinho e bom-fim-de-semana.

Tiago disse...

se o tempo de estudante é o melhor das nossas vidas, porque raio é que o deixamos?

Talvez para termos a oportunidade de sentir saudade. Mas eu cá ainda nao tenho idade para sentir saudades, nem para contar histórias, por isso há que primeiro as construir.

nuvem disse...

É bom recordar o que nos faz sorrir.

Beijos

Demóstenes disse...


Eva Gonçalves,

Ainda bem que falamos o mesmo português!!!

Quanto às temáticas e teor dos meus textos, tento que não haja qualquer pressão externa(daí o anonimato sob forma de pseudónimo ou heterónimo que confere alguma liberdade mas nunca irresponsabilidade). Às vezes consigo passar a letra as ideias que queria, outras nem por isso. A inspiração para fazer-se o que quer que seja é fugaz e inconstante mormente quando se tem uma filhota de 2 anos a correr pela casa.

Demóstenes disse...


Tiago,

Toda a gente, independentemente da sua idade cronológica, tem a sua história (e as suas estórias) para contar. É claro que, com o passar dos anos, a experiência de vida acumula-se e há mais que contar. É por isso que os grandes contadores de histórias são anciãos.

Já agora, o Demóstenes, que tem muito de autobiográfico, está no início da dezena dos trinta. Se bem que, por vezes, aparente ter a cabeça de um velho.

Demóstenes disse...



S*,

O Demóstenes também não é grande beberrão. Já o foi em tempos.

Agora leva uma vida (demasiado) regrada: pratica diariamente desporto, tem uma alimentação cuidada, cumpre escrupulosamente o período de sono...

Demóstenes disse...


Nuvem,

Obrigado pela sua visita!

Sorrir é sempre bom. Recordar nem sempre. Por vezes pode ser doloroso.

Leo Mandoki, Jr. disse...

eu era frequentador de um ai perto. So o meu GPS não me falha, descia-se entre a faculdade de letras e a de direito, e antes de chegar a Sé Velha, havia uma tasca sim! e era que eu me perdia 100% alcoolizado.
Qnt a coragem:
a coragem nao se pede. Ou se tem ou não se tem.
Fica bem!
P.S.: a saudade em excesso faz doer os neuronios

Tiago disse...

De facto o Demóstenes parece ser mais mais velho. Também eu já tenho histórias para contar, mas ainda não tenho saudades ao ponto de as querer contar.

Talvez um dia.

heretico disse...

gostei do texto. e da evocação das tascas de Coimbra...

... mas nos finais de década de 60, em Coimbra, para além da lerpa, guitarras e mulheres fala-se de "coisas" bem mais importantes.

abraço

Tia Maria disse...

Eu também costumava ir a uma tasca há uns anos valentes. Era a Tasca do Cão em Almada e bebia-se uns submarinos, umas ginjas e uns brancos velhos é maneira. Bons tempos.
Cumprimentos da terra das tulipas

Demóstenes disse...


Heretico,

Não tive a felicidade de viver nesses conturbados tempos que evoca.

Demóstenes disse...


Leo Mandoki Jr.,

Parece-me que o teu GPS aponta para a mesma tasca...

Abraço,

Demóstenes disse...


Tia Maria,

Obrigado pela visita.

Met Vriendelijke Groeten

Anónimo disse...

"Volta e meia, por entre os humores do vinho rasco, vendido a copo por meio tostão, como a estudante pobretana convém, discutia-se filosofia, teologia, gnoseologia, epistemologia"
DEVIAS FALAR MAS ERA SOZINHO!!!!
IsaB