segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A caçada

Quando eu soube que hei-de morrer, entrei imediatamente em pânico.
Isto, se não me ilude a memória pela névoa dos anos, deve ter acontecido tinha eu uns cinco ou seis de idade quando o meu avô levou-me, pela primeira vez, à caça. Era uma manhã fria de Outono e uma fina película de cristais, depositada durante a noite, cobria as forragens do gado num lençol branco a perder de vista. O halo da respiração, doutra forma invisível, confirmava a temperatura ambiente. A cada exalação parecia que pedaços de alma se separavam irremediavelmente dos corpos. Naquela fria manhã, este cisma acontecia repetidamente diante dos meus olhos, não só a homens como também a outros animais, pelo que a minha lógica infantil logo formulou secretamente o axioma "ser que respira tem alma". É por esta misteriosa comunhão que todos se chamam animais porque providos de "anima" como viria a aprender mais tarde nas latinidades.

Nem o frio arrefeceu a perspectiva de uma aventura em companhia do meu avô. Ainda o sol era um embrião no ventre das montanhas, já o leite borbulhava no fervedor suspenso nos malabarismos da trempe sobre o brasido reanimado da véspera. Antes, já a Pinta(*) tinha oferecido as suas tetas à carícia das mãos, simultaneamente vigorosas e delicadas, do avozinho. Da fonte inesgotável do úbere do meigo animal brotava diariamente, em jorros, o precioso néctar branco e morno que desjejuava miúdos e graúdos. Anos antes da pasteurização e da desnatação serem processos industriais corriqueiros, esta oblação repetia-se pelo ano fora, ao amanhecer e ao anoitecer, excepto no período imediato ao nascimento de um novo vitelo.
Depois de bebido o leite, com café para os adultos, e de comida uma grossa fatia de sêmea de trigo com queijo, se o havia, e marmelada, o avô cintou-se com a cartucheira e cingiu o velho arcabuz a tiracolo.
Seguimos depois pelos prados fora - o patriarca à frente, o neófito logo colado na peugada - tentando minimizar o ruído único do gelo que se quebrava, a cada passo, sob as botas. A liturgia da caça exigia estes silêncios absolutos para surpreender as presas: uma ou outra perdiz, aquáticas como patos e narcejas, as ocasionais (por migratórias) abecuinhas, às vezes um coelho...
A comunhão perfeita entre os homens e a natureza era, a espaços, subitamente perturbada pelo trovão que saía da boca da caçadeira, em forma de chuva plúmbea, por vezes fatal para a passarada.
Foi a seguir a uma dessas troadas, que feriu de morte uma colorida abecuinha apanhada a pastar despreocupada entre os vinhedos, que eu primeiramente tomei contacto com a morte. Até aqui sempre me haviam ocultado o fenómeno, poupando-me a velórios de vizinhos ou familiares, por meio de invenções várias.
Depois do estrondo, o estúpido pássaro não mais se mexeu. Perante o meu olhar atónito, o avô encorajava-me a cobrar a presa, troféu de caça que mais tarde serviria para conforto do estômago. Ao fim de uns minutos de descrença, automaticamente saindo do transe, aproximei-me pé-ante-pé do pobre bicho e levantei-lhe do chão o cadáver ainda quente. Entre mãos levei-o à presença do avô que assistia, sorrindo, a toda a cena. Naquele momento, desejei a (im)possibilidade de odiar o ceifeiro de vidas, o assassino de pássaros, por detrás do homem. Não! Nem este episódio pôde manchar jamais a imagem imaculada que sempre guardarei do avô.

Cozinhou-se o pássaro e outras presas aladas que, naquele dia, conheceram sorte idêntica sucumbindo à pontaria cada vez mais escassa do velho homem, já que a vista ia acusando o peso dos anos, falindo gradualmente; felizmente para as aéreas o avozinho não mais ser exímio atirador; infelizmente para o próprio e para mim que assistia impotente à degradação natural da carne amada e, por meio destas e doutras vivências, ia percebendo a mecânica subtil da vida.

Dispostos ao redor da mesa, fez-se um invulgar silêncio de morte e, perante a minha recusa em comungar dos pássaros, o avozinho adivinhou finalmente as inquietações do meu espírito de criança. Tentou, em vão, tranquilizar-me, explicando-me o jogo de luz e sombras da vida e da morte, e a atroz engrenagem que faz, de uns, presas e, de outros, predadores.
Não sei se nesse dia aprendi a lição. Sei, isso sim, que o velho homem nunca mais caçou.

(*) a Pinta era uma amiga quadrúpede a quem só faltava, como dizia o avô, o dom da fala. Chamar-lhe aqui vaca seria um insulto para o nobre animal. Outras há não tão nobres e com metade das patas. Mas isso é outra história.

22 comentários:

Malena disse...

Lembro a zanga da minha mãe quando eu, triste e arreliada por vê-la matar os coelhos, dizia, "Coitadinhos!". "Morrem mais devagar!", dizia-me ela.
Aos olhos de uma criança a morte de um animal às mãos humanas parece sempre terrível.
Texto fantástico, como sempre.
Obrigada pela partilha!

Eva Gonçalves disse...

Sempre o teu avô... :)
Também o meu pai foi caçador em outros tempos(tordos, perdizes, faizões e até veados e javalis..)e com ele levava o filho primogénito,para mais tarde, se tornar gradualmente, contra a caça e se tornar um acérrimo observador e defensor ds referidas espécies...:), coisas da progressão da idade e da brandura que com ela vem...
Ah...faltou-me dizer que o relato, como sempre,muito bonito.

Lilá(s) disse...

Em criança também fiquei horrorizada a 2ª vez que vi matar um coelho, foi de tal maneira hoje em dia sou incapaz de tal ver...
Bonito, gostei muito.

jrd disse...

Belíssimo texto como. aliás, todos os outros.
Respira-se bem aqui, assim como se lê.
Boa semana

S* disse...

A vaca era nobre... mas realmente existem outro tipo de vacas, que roçam mais a vulgaridade. eheehh

Carmo disse...

Demóstenes no Alentejo onde nasci também o meu pai caçava passarinhos que depois minha mãe fritava com bastante cebola. Escusado será dizer que até hoje, nunca mais comi carne de caça.
Coitados dos passarinhos, dos pombos dos coelhos e das lebres. Por muito esforço que meu pai fizesse para me explicar que é necessário para a nossa sobrevivência, nunca conseguiu.

Abraço


Carmo

Malinha viajante disse...

Clap clap adoro sempre os teus textos ;)
Já não sou criança e assusto-me cada vez mais com esta realidade!
bj*

Arisca disse...

Um texto fabuloso, como já seria de esperar!
Não é a primeira vez que, ao ler o que escreves, me sinto transportada até ao universo de Vergílio Ferreira! Será coincidência? ;)

*um abraço

Maria João disse...

É uma delicia ler o que escreves sobre a tua infância e o que dela te ficou gravado na pele e na alma!

Gostei imenso, como sempre gosto!

meldevespas disse...

Nem sequer me vou pronunciar sobre o tema, até porque daraia pano pra mangas, e eu adoro caça...no prato.
Agora o texto...esse está brilhantes, cheio de pormenores de poesia e realidade a um tempo só. Adorei, como vai sendo hábito cada vez q aqui venho.
Beijinho

quererenaoteter disse...

Eu não consigo ver nenhum animal a morrer :S arrepia-me imenso .

Bjinhos ^^

fd disse...

Com todas incoerências intrínsecas, sou contra a utilização dos animais, mais ainda dos selvagens, mais ainda com meios imprecisos e lentos que provocam sofrimento, para modalidades de prazer humano. Compreendo que noutros tempos o contexto era outro e as necessidades também.

Um belo texto e a invocação de uma relação de dádiva muito importante.

heretico disse...

gostei do texto. muito bem construido. (d)escreves muito bem...

pareceu-me o final um tanto ou quanto convencional para não dizer "moralista". mas deve ser o meu olhar "herético". não faças caso...rs

Licínia Quitério disse...

Para agradecer a amável visita e dizer que apreciei as suas belas prosas.

bettips disse...

O velho grego tem um seguidor/orador/escrevedor de fôlego!
É belo passear pela infância, poder ter opinião e flar sobre os bons seres que nos acompanharam.
Obrigada pela passagem pelo lugar "do Klimt" - é uma cópia feita por mim, quando o pincel me era criança obediente e eu mais serena.
Abç

kataryna disse...

:)

Carla disse...

um óptimo texto

Maria João disse...

Que seja Natal, na tua vida e na de todos aqueles que amas.
Um Natal quentinho, em paz, com saúde e muita esperança.

Beijocas

Malena disse...

Meu caro Demóstenes, venho apenas desejar-te um bom Natal, passado como e com quem mais gostares. Aproveito para te instigar a escrever porque os teus textos fazem muita falta! :-)

(Não sabia bem se devia usar o "tu" ou o "você" mas já estou numa idade em que o "tu" me é mais fácil!!!!)

Maria João disse...

Que o novo Ano te traga novamente a vontade e a inspiração para partilhares connosco o que escreves. Bem... e que te permita ter, ser e fazer o que mais desejares.

Um beijinho

Susaninha disse...

TEXTO FANTASTICO E VEJO DESEJAR-TE UM ANO FANTASTICO:):)
Que concretizes o teu desejo mais especial:)
Que sorrias MUITO e faço um brinde a tiiiiii...
Obrigada ao teu blog ,aos teus textos:)
O 2010 vai ser um ano em grande:)
SUUUUUUrrisinhos:)

Malena disse...

Voltei aqui para te desejar um 2010 excelente e profícuo em textos, para teu e nosso prazer! Boas entradas! :-)))