sábado, 5 de junho de 2010

Memórias de infância

Fui abençoado (e simultaneamente amaldiçoado) com uma memória prodigiosa.
De paquiderme dir-se-ia.

Dos primeiros dias de vida extra-uterina guardo a imagem dos bigodes farfalhudos de meu pai debruçado sobre o berço de pinho crú que era, naquela altura, todo o meu universo; o rosto macilento da minha jovem mãe no vigor dos seus vinte e (muito, talvez demasiado) poucos anos quando me acolhia no seu regaço e oferecia o seu peito desnudo à amamentação do seu precioso rebento.
Quantos sonhos e expectativas depositados no primogénito!
Depois vieram os dias dos tostões contados, do pão duro da véspera - ainda assim pão-nosso de cada dia - os invernos rigorosos amenizados pelo crepitar das castanhas assadas à lareira ouvindo miríades de fábulas da boca do avô.

E o paizinho foi para África ganhar o pão que cá escasseava.

E o bebé deu lugar à criança e o jovem apareceu depois e em pouco tempo fez-se prematuro homem; não por fora, que a biologia reclama o seu tempo, mas por dentro.

Do paizinho regressou, passados alguns anos, apenas o corpo, mais ausente que presente, e uma cabeça débil povoada sabe-se lá por que ultramarinos fantasmas afogados apenas pelo uso, e não raro abuso, da bebida.
Incontáveis as noites em que espiei a minha mãe, sentada na beira da cama, a chorar copiosamente, velando ansiosamente a chegada incerta do meu pai. E finalmente lá vinha o meliante, altas horas da noite, cambaleando embriagado depois de mais uma noite de farra com os amigos. As más companhias, aliás, foram a desgraça do meu pai.
A minha mãe sempre foi a pedra angular da frágil edificação que é a família.

E o rapaz, feito homem à pressa, cresceu alimentando-se da revolta em surdina.

Foi uma infância difícil, de afectos paternais sonegados, e não é pois de estranhar que mal tenha surgido a oportunidade de fuga daquela realidade, o rapaz nem tenha pensado duas vezes.
E a oportunidade tardou mas surgiu da mais inusitada forma.
Num dia morno de primavera, o pároco da aldeia, durante modorrosa homilia, trouxe a lume a questão da vocação sacerdotal.
O bom do clérigo, esgrimindo da mais fina retórica monacal, dirigia-se à assembleia questionando se não haveria na paróquia rapazes, a frequentar o ciclo preparatório, interessados em passar um fim-de-semana no seminário diocesano; à experiência e sem qualquer pesado contrato vitalício que esta coisa da vocação sacerdotal quer-se leve como as plumas dos querubins os quais, como se sabe, tocam trombetas celestiais à direita do Todo-Poderoso.
E a retórica inflamada do padre fez naquela manhã duas vítimas: o meu vizinho, melhor amigo desde tenra idade, e eu.
E numa solarenga tarde de sábado lá fomos os dois cheios de expectativa ao nosso primeiro encontro do pré-seminário.
Impressionou-me de sobremaneira o silêncio daqueles imensos claustros.
Diz-se que Deus fala no silêncio e, naquela tarde, julguei eu na minha lógica infantil, ter ouvido um sussurro...

5 comentários:

Malena disse...

Não é difícil, na idade em que despertamos para o que nos rodeia, levarem-nos a acreditar em sonhos, ainda que estes não tenham muito daquilo que aparentam...Principalmente quando a nossa realidade nos traz um sabor amargo.

Catsone disse...

Fiquei extasiado com o texto e relutante em acreditar que seria mais do que ficção. Citando Nietzsche: "aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes".
Abraço

Mar Arável disse...

Na verdade a vida surpreende-nos

para o bem e para o mal

Dificil é conquistar um espaço

que se partilhe

bater à porta das palavras

e criar um texto como o seu

com memórias e amanhãs

fd disse...

Deves ter gostado da “Memória de Elefante”. Neste momento sinto a minha memória como uma maldição mas, mesmo assim, não a rejeitaria. O desvio de criancinhas, interesses ocultos e conspirações nos claustros fascinam-me e causam-me arrepios. Ocorre-me “O Nome da Rosa”. Do resto, não menos importante, faço silêncio, sem me comparar mas apenas porque não me atrevo a sussurrar. Bem-vindo de volta.

Eva Gonçalves disse...

Mesmo quando decides regressar... eu estou de partida. Explicações no meu blogue. Obrigada pela companhia e por também teres feito parte dos leitores cujos comentários mais apreciei. :)Foi uma honra ler-te, e o teu talento.Ainda bem que regressou para proporcionar prazer a todos quanto te visitam Tenho pena de não o poder continuar a fazer. Um grande beijinho.