terça-feira, 17 de novembro de 2009

Assim vai o jardim à beira-mar plantado

[...] E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro - o que d'Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.

Pêro Vaz de Caminha

Não sabemos se o visionário rei D. Manuel, o primeiro do nome na tabela real, como diria o outro, acedeu ao pedido do escrivão e tomou as diligências necessárias para fazer vir de São Tomé o tal de Jorge Osório, genro do pedidor. Sabemos, isso sim, que esta inocente petição ficou, através da importância histórica óbvia de que se revestiu a carta, registada para a posteridade e ainda hoje é vista pelos lusófonos do outro lado do Atlântico como o primeiro caso documentado de nepotismo em terras de Vera Cruz. O pedido de Caminha, serve, ainda hoje, como brocardo para justificar a, por vezes muito pouco, ética pública brasileira e é tido como uma espécie de primitiva herança lusa que terá marcado indelevelmente, por toda a eternidade, os genes brasileiros. Até aqui tudo muito bem, não fora o caso de nepotismo não ser nada disto.

Não querendo tomar em mãos o papel da defesa histórica de Caminha, parece-nos que o último parágrafo da sua carta ilustra uma outra característica do Português, imutável, pelo que se está aqui a ver, per omnia saecula saeculorum. Estamos, claro está, a referir-nos à tão portuguesa cunha. Da multiplicidade de particularidades que constituem a idiossincrasia do Português esta será, quiçá, uma das mais evidentes e fáceis de comprovar nas vivências do dia-a-dia. Acontece repetidamente diante dos nossos olhos, de uma forma mais ou menos desvelada, e, se amiúde é inócua apesar de moralmente criticável (quem for santo que atire a primeira pedra), outras vezes reveste-se de alguma gravidade mormente quando possa lesar interesses doutrem ou de todos, estando em jogo a coisa pública.

Nas altas esferas políticas e empresariais, a cunha reveste-se do nome mais pomposo, para prática igualmente reprovável, de tráfico de influências; a trampa é a mesma, o odor diferente, diria assim o povo ou diria diferente, doutro modo que aqui, por delicadeza, não nos atrevemos a reproduzir. Fica ao critério e imaginação de quem está desse lado, que certamente não haverá míngua destes em quem nos segue.

E, se há contrapartidas patrimoniais ou pecuniárias nestas autênticas cadeias de tráfico de favores, através de suborno, o fenómeno passa a chamar-se globalmente de corrupção, activa ou passiva, consoante sé é corruptor ou corrompido; corruptos porém em ambos os casos.

Para finalizar este breve glossário de termos falta-nos abordar o lobby. Em alguns países, como nos Estados Unidos, encontra-se perfeitamente regulamentado e é até tomado como profissão. Noutros, como Portugal, a coisa está ainda numa fase embrionária e poderá ser facilmente confundida na névoa da corrupção. Diríamos que o lobby, como se pratica nos EUA, é o acto de certos indivíduos ou grupos organizados fazerem pressão, junto dos decisores políticos e legisladores, em favor de determinados interesses.

É do conhecimento geral que a corrupção anda de braço dado com a pobreza, extrema, dir-se-ia, na maioria dos países do hemisfério sul.
E se, quando os corrompidos se deixam corromper por ser esta forma única de conseguir alimento diário para o estômago, para o seu e para o dos seus, o fenómeno, apesar de continuar a ser moralmente reprovável, passa automaticamente a ser desculpável ou perdoável, que a necessidade aguça o engenho, já tal visão complacente ou perdulária não se poderá ter, acontecendo idêntico a quem já tem de sobra.

A segunda ocorrência deu-se, ao que tudo indica, que todo o inocente o é até prova do contrário, e assim indicam apesar de suprimidas como prova algumas das escutas telefónicas, no badalado caso Face Oculta, com o ex-ministro socialista (convém relembrar em quem confiamos, quer queiramos quer não, as rédeas do nosso destino colectivo) Armando Vara. Se o crime é condenável, porém desculpável, num pobre que rouba para a boca, como atrás se disse, já se praticado por gestor de alta finança, que aufere dos gordos vencimentos e opíparas regalias que lhe conferem a posição, assume contornos de especial repugnância entre a opinião pública. Fará deste um caso exemplar a muito desacreditada justiça portuguesa ou, por outro lado, acabará tudo em pizza, como dizem os nossos irmãos do outro lado do Atlântico? Aguardam-se cenas dos próximos capítulos nos dias que se seguem.

Quem teria a ganhar com a publicidade gratuita cada vez que o nome Face Oculta é referido nos meios de comunicação, seria a respeitável Dona Isilda, madame de reconhecidos méritos, fundadora da casa de diversão nocturna que empresta o nome ao processo por alegadamente ter servido de tecto - e não só, acrescentamos nós - na calada da noite a alguns dos arguidos no processo judicial, não se desse porém o caso do prostíbulo, digo, boîte, ter entretanto cedido lugar e posição a um bar alegadamente LGBT com diferente onomástica e distinta gerência. Lamentável falta de visão, de uns e de outros, antigos e actuais proprietários.

4 comentários:

Malena disse...

O grande problema que se nos apresenta é que, mesmo à míngua de imaginação, a realidade supera qualquer falha! :-(

Eva Gonçalves disse...

:)Falta de visão mesmo. Até que era um bom nome! Sendo o Tuga médio, esperto como é... decerto alguém o irá aproveitar em breve!!Talvez renomear alguma autarquia, ou banco, ou ...enfim... a imaginação é o limite!
Beijo

ADEK disse...

Há muito tempo que não ouvia a palavra "pecuniário". Hoje usei-a numa apresentação, e mais tarde leio-a aqui. Agora aposto que se passarão anos até ela se voltar a cruzar cmg...*

Malinha viajante disse...

O grande problema da corrupção é exactamente esse que referiste. Acho muito complicado algum dia acabar a menos que neste País a impunidade termine!
Quanto à Face Oculta esperemos pelos próximos capítulos ;P