quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Os pianos são eternos

O velho piano de cauda reinou, soberano, sobre o rés-do-chão da centenária casa durante mais de duzentos anos.
Pela dentadura intercalada de ébano e marfim das suas oitavas haviam-se passeado, neste intervalo de tempo, os dedos de sucessivas gerações, para gáudio e entretenimento de miúdos e graúdos, que assim matavam a monotonia nas soirées das invernosas noites de outrora promovidas pelos anfitriões da vetusta casa.
Misteriosa e exemplar irmandade esta das teclas do piano, que, apesar da radical diferença, em tamanho, cor e som, colaboram eterna e harmoniosamente para deleite dos sentidos. Fossem assim os homens, pretos e brancos, altos e baixos, e a música do mundo seria certamente melhor.

O piano vestia-se agora de luto e a sua pintura, de um verniz preto resplandecente nesses tempos idos, quase espelho, estava agora baça e amarelecida pela inclemência do tempo.
Irremediavelmente votado ao esquecimento num canto da ampla sala, havia sido gradualmente substituído, no coração dos habitantes, primeiramente pela muito mais apelativa televisão, caixa mágica que prometia revolucionar o mundo, e, mais recentemente, pelos sofisticadíssimos computadores e consolas que entregavam aos olhos rendidos do utilizador admiráveis mundos de polícroma fantasia.

A nave do tempo também não reservou espaço à sobriedade do fraque do pianista que, unido outrora por mãos e pés ao fiel instrumento musical numa espécie de prolongamento do seu próprio corpo, alheio a tudo em seu redor como que numa espécie de transe hipnótico, acariciava as teclas brancas e pretas do fiel companheiro, ora célere e vigoroso, ora vagaroso e delicado, consoante as exigências do mapa da partitura.

Os primos afastados do nobre instrumento de corda percutida, sintetizadores e órgãos electrónicos, viram na revolução dos tempos oportunidade de expansão e disseminaram-se um pouco por toda a parte pontificando agora, de igual modo, em sóbria Sé-catedral ou em psicadélicas bandas rock. Estranha sina esta em que um mesmo instrumento serve fins tão díspares.
O tempo, porém, não traiu a herança genética do velho piano e os seus primos continuam a ostentar orgulhosos, ainda hoje, a mesma dentadura alva e negra do ancestral.

O nosso fiel amigo é que, divorciado agora de Schubert ou Chopin, ainda cumpre os seus desígnios de piano soltando esporadicamente, pelo menos sempre que alguém lhe deixa inadvertidamente a boca aberta e a gata de pelagem manto de neve se passeia languidamente sobre os seus dentes, uns grunhidos quase imperceptíveis de bemóis ou sustenidos, já sem a limpidez de antigamente que a idade e a falta de afinação não se compadecem nem dos velhos pianos.

Urdido (à pressa) para o desafio "Preto & Branco" da Fábrica de Letras

11 comentários:

Arisca disse...

Mesmo "urdido à pressa", não deixa de ser um texto fabuloso!

*um abraço

Gingerbread Girl disse...

Lindo!!

Mas discordo num ponto... o piano jamais estará divorciado de Schubert e de Chopin, serão sim, eternos amantes. ;)

*

meldevespas disse...

Urdido à pressa . . . pois sim...
Muito bonito este texto. Em casa da minha sogra há um desses pianos tristes, sós, desafinados e divorciados da música e dos seus virtuosos. às vezes os miúdos chegam lá, miram de longe, a medo, acustumados q estão com as modernidades tecnologicas dos dias de hoje, e também a medo tocam nas teclas e esbugalham os olhos surpreendidos ainda assim pela voz daquele gigante mais esquecido q adormecido.
Gostei imenso.
Beijo, e desculpa o comentário tipo seca...

Brown Eyes disse...

Demóstenes este é um dos blogs que tenho pena de não ter o tempo desejado para ler. O dono escreve tão velozmente que é dificil conseguir acompanhar. Quanto a este preto e branco, urdido à pressa, está maravilhoso e cria em nós, nós com uns anitos, saudades do passado, passado em que tínhamos tempo para estes instrumentos e outros que faziam de nós pessoas felizes. Hoje temos tanta coisa e há tanta gente deprimida. Faz pensar não é? Não sei tocar mas tenho alguém que toca para mim, não piano, mas órgão, acordeão e concertina. Adoro ouvi-lo. Obrigado por este momento bonito.

Malena disse...

Um piano será sempre um piano! Ponha-se uma tecla, uma apenas, nas mãos de um miúdo e ele dirá que é de um piano!
Não que eu seja particular admiradora do actual Paul mas lembrei-me da canção "Ebony and Ivory" ao ler este texto.
Quem sou eu para avaliar...mas acho os teus textos maravilhosos!

MZ disse...

Por trás do ébano, do marfim e das notas bem afinadas, existe toda uma estrutura complexa. Tal como
a sociedade em que vivemos também complexa, mas diferente no que toca à afinação!

Gostei muito da comparação do piano ao homem.

Eva Gonçalves disse...

Texto maravilhoso, como nos acostumaste. Sou uma fã incondicional do que escreves. Acredita que estive quase para escrever sobre um piano :)(great minds...)Darwin, nunca falou na origem do piano, mas os instrumentos musicais, também evoluem. Certos instrumentos, continuarão inalteráveis por muitos e muitos anos ainda, e julgo que o piano será um deles. Tal como a paixão,e como disse o poeta, será eterno enquanto durar...mas a memória dos sons que dele emanam, essa será eterna! Em casa dos meus pais, também jaz um piano de meia cauda, que já foi meu, do meu filho, e agora... serve anualmente de apoio para um enorme presépio de Natal! E também já cá tive um piano em minha casa... num tempo em que a felicidade andava de mão dada com finais de tarde a tocar Bach... como tenho saudades de o ouvir tocar... Mesmo assim, não o vejo como um elefante branco no meio da sala, mas como um fiel amigo no futuro de alguém...é assim a vida, é suposto passarem de uma geração às próximas...:)
Beijo

fd disse...

As teclas dos homens são difíceis de encontrar e as que são normalmente pressionadas para formar um qualquer padrão invocam-me sons pouco harmoniosos. Devo ser eu, que não tenho um ouvido apurado.

Apesar da forte concorrência, constato que os pianos continuam a suscitar fascínio nas novas gerações. Para outras idades, existem estudos que sustentam que tocar piano ajuda a combater o avanço da doença de Alzheimer.

Um texto melodioso.

Si disse...

Também cheguei aqui pela Fábrica das Letras e também gostei do que li.
Há desafios que nos fazem ultrapassar algumas barreiras.
Obrigada pela visita.
Volte quando quiser.

maria teresa disse...

Querido Demóstenes
Bonito texto a fazer-me relembrar tempos passados em que na sala imperava um piano...
Continuo a gostar muito do som deste instrumento e continuo a ouvi-lo...
Bj

Maria João disse...

Se das teclas de um piano, sai a das construções musicais mais belas que há na história, da tua pena, meu caro Demóstenes, saem textos extraordinários, merecedores de uma edição em livro para eternizar. Sabes é que um dia, podem lembrar-se de apagar os nossos blogues e deixaremos todos de ter o previlégio de os ler.

Um beijinho