sábado, 17 de outubro de 2009

Elaborações ao entardecer

O sol afoga-se apressadamente nas plúmbeas águas do Atlântico, ferindo o horizonte de um sanguíneo encarnado menstrual. Um par de putas, irredutíveis guardiãs de esquinas opostas, rivais no múnus, apregoa despudoradamente, em lânguidos olhares de desesperança, o produto do próprio corpo, ansiosas de freguesia tardia que permita acesso à mísera tigela de sopa, mitigadora da fome. Ao fundo, verticais palmeiras, tornadas gasosas pela luz que se esvai, acentuam o dramatismo da tela. Caíra eu aqui de forma icaresca e julgar-me-ia retido num dos nocturnos contos de Sherazade: as putas convertidas em opulentas odaliscas; a cidade dos canais, Pérsia das Mil e Uma Noites.

Os poucos barcos, atracados de um lado e doutro do canal, reverenciam a passagem de um congénere, em cortesias de vénias desfeitas, acenando repetidamente as polícromas proas, condimentadas por brejeirice naïf, fazendo-me lembrar, de imediato, o-cão-de-louça-de-dizer-que-sim da minha infância que habitava, pachorrento, a chapeleira do majestoso Ford Taunus do meu avô (como te sinto a falta, avozinho!!!).

Incandescentes agora as luminárias, conferem uma dimensão fantasmagórica à cidade, que, recolhida no boudoir dos canais, mira-se garbosa na platina das águas, sob as quais se escondem perdidas Atlântidas de sonho. Nas margens, a ladear, moderníssimas caravanas topo de gama, propriedade de erráticos ciganos hodiernos que, aproveitando a extemporânea bonomia do tempo, servem de improvisada guarda de honra aos escassos moliceiros que resistem, teimosos, de nariz da proa empinado como que cientes do seu passado glorioso, às cicatrizes do esquecimento. Um ou outro pano enfunado, prenhe de vento, a gritar lancinante deixem-me partir, quebrem-se os grilhões que me amarram ao cais e façam-se cumprir os meus sonhos de barco!!! Entristece-me profundamente a prece deste barco que jamais cavalgará a espuma das águas já que a ardilosa montagem é apenas para consumo turístico. Engalanam os homens um barco, enchendo-o de falsas promessas, para o subjugarem à sua pérfida vontade e o manterem sob a ânsia constante da partida adiada. Por aqui se mede também a vileza do homem.



Um bando de pássaros, alheio a tudo isto, desenha, no lusco-fusco dos céus, um afirmativo V de liberdade conquistada.

Mas voltando às putas, que, a esta hora, electrizadas pela camuflagem da noite, já devem ter fisgado um ou outro freguês; com sorte, talvez um desses sebosos marujos, de carta náutica decalcada em cada sulco da pele curtida pelos incontáveis dias de sol e mar; um desses recém atracados no porto comercial, que, depois de uma fastidiosa cruzada transatlântica, enjoa a ausência de balancear ao pôr pés em terra firme (estranha sina esta), se mostre cavalheiro e, num assomo de generosidade ou inebriado pela descarga hormonal, ofereça mais do que a tarifa previamente acordada, entre as partes contratantes, num emaranhado código gestual digno de Wall Street.

A esta hora, na Sé-Catedral, um punhado de assíduas beatas perpassa, entre dedos ossudos, as contas do rosário em cascatas de monocórdicas Avé-Marias.
Avé, Maria, cheia de graça...

Foto gentilmente cedida por JotaPeCruz

14 comentários:

maria teresa disse...

Caro Demóstenes mais uma pérola que me ofereces, presente de Rei, perante o qual me curvo em elegante vénia, meus olhos brilhantes exprimem gratidão por tão bela e delicada oferenda, da minha boca emergem palavras sussuradas de apreço pela delicadeza do gesto.
Mas este presente vem envolto num manto de revolta... revolta tapada por uma máscara veneziana, que tenta encobrir a cruel hipocrisia dos que vegetam em contacto com a ignomínia, a nudez despudorada dos sentires maléficos que se encontram nos trilhos que os amantes anseiam por percorrer...
Beijinho embrulhado

Lídia Borges disse...

Um texto muito intenso e realista,tocando de forma subtil cicatrizes, ao entardecer...

Muito boa a prosa, por aqui!

Obrigada.

Lilá(s) disse...

Com um texto assim qualquer "passeante" se sente tentado a voltar, por isso voltarei.
Muito bem se escreve por aqui!

Eva Gonçalves disse...

Gostei desta descrição do lusco-fusco. Aquela hora em que tenho dificuldade em conduzir...em que a luz ora nos ofusca ou nos ilude e em que nem tudo é o que aparenta ser...
Vis de facto são os homens que prendem os barcos que querendo partir ao encontro dos seus sonhos, se encontram amarrados ao cais...tens razão, só por isso se vê a real dimensão do seu sadismo...
beijo e bom fim-de-semana

Pena disse...

Genial Amigo:
Escreve o seu e o nosso quotidiano de maneira DIVINAL.
Faço-lhe uma vénia amiga de admiração.
É um prodígio literário.
Abraço amigo de um respeito gigante.
Sempre a admirá-lo e a respeitá-lo.

pena

Bem-Haja, fabuloso escritor amigo!

heretico disse...

putas e beatas. gosto desse teu universo.(literário)

bem escrito. o texto.

(com que então de candeia acesa catando gralhas? tempo perdido, não te canses. as gralhas perseguem-me)

grato pela visita.

abraço

Puto disse...

Eu sinto o oposto.

Sinto que rococo literario raramente e boa escrita (lamento a falta de acentos, teclado ingles)...

Bem observadas as cenas de rua mas fora isso sinto haver uma necessidade exagerada de provar o nivel do portugues.

Ja dizia o Yeats (que de vez em vez me trata por tu! ahah):

"Think like a wise man but communicate in the language of the people.".

Ja agora, nao estou a tentar destruir o texto. Estou somente a dar o meu parecer...

Para que a escrita seja totalmente "livre" tem de nao ter de se considerar essenciais certas coisas...

:) Miguel

Demóstenes disse...


Miguel,

Respeito a sua opinião e subscrevo a oportuna citação de Yeats (se bem que o próprio W.B. Yeats, no início de carreira, produziu muita coisa rebuscada).

Talvez eu tenha lido demasiado Lobo Antunes, cujo estilo (alguns dirão gongórico ou rococó - e alguns, efectivamente, o fizeram) me agrada particularmente.

Já aqui confessei a uma comentadora que eu escudo-me por detrás de parágrafos elaborados e vocábulos inusitados quando, no fundo, queria ser dono da simplicidade d'"O Principezinho".

Esperemos que o tempo amadureça a minha escrita e esta caminhe para a simplicidade.

Obrigado pela sua crítica!

Inutilia truncat!!!

Anónimo disse...

Só faltou o cheiro a cera...

fd disse...

Conforme disse o próprio Lobo Antunes, é preciso ter cuidado porque alguns escritores "pegam-se" e existe a tendência para os imitar.

Além das particularidades do estilo, com as várias referências e comparações, tanto ilustrativas, supérfluas, exigentes ou didácticas, agrada-me a atenção aos pormenores, as relações entre as personagens, as mudanças de referencial, a atracção pelos extremos e a mensagem que fica, extraída por cada um, e que para mim foi a da liberdade.

Abraço.

Fábrica de Letras disse...

Olá Demóstenes
Nós somos a Fábrica de Letras.
Estamos a iniciar um projecto de blogagens colectivas.
Pretendemos que os bloguers portugueses possam interagir e dar-se a conhecer.
No dia 1 de cada mês, a Fábrica de Letras lançará um tema. Para participar basta escrever um texto sobre o tema proposto e inscrever-se no link que estará à disposição no blog, no dia 15 de cada mês.
Podem ser usados textos,poemas, contos, fotos ou vídeos. Divulga, participa!

Susaninha disse...

DÉMOSTENEZINHO ESCREVES SEMPRE ASSIM???
Meu Deusss...somos o opsoto:):)
ÉS O ELABORADO:)
Mas com todas as certezas um post muito realista, que pode ferir algumas pessoas, mas para mim está top:)

Perla disse...

"o-cão-de-louça-de-dizer-que-sim da minha infância que habitava, pachorrento, a chapeleira do majestoso Ford Taunus do meu avô"

Uau! como isto me é familiar!

Obrigada pela visita.

Gingerbread Girl disse...

Eu tenho pena das beatas... muito sinceramente. Antes ser putª! :s

Enfim...

Lindo texto. =)


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