domingo, 14 de novembro de 2010

Explicações

A minha mulher é um templário deslocado no tempo.
Há dias abraçou a cruzada impossível de dar explicações a um dos garotos aqui da vizinhança.
E o catraio cá vem a casa, todos os dias pela mesma hora, sábado e domingo não são excepção, cabisbaixo e contrafeito, para as explicações de português, matemática e estudo do meio que é como se chama agora ao meio-físico e social do tempo em que também eu era menino de escola.
Por sua exclusiva vontade andaria lá fora, na rua, aos chutos na bola com outros da sua idade.
Ou então, não; preferiria certamente estar a jogar computador ou playstation que os tempos são outros e os adultos de amanhã têm hoje a bola ao alcance da ponta dos dedos nos comandos dos videojogos e assim evitam correr, suar e sujar-se, e os paizinhos agradecem a poupança na conta da água e electricidade na hora de pagar as respectivas facturas. Sim, porque até em termos de consumo eléctrico, os videojogos batem aos pontos, em questões de aforro, a máquina de lavar roupa!!! E assim, para gáudio dos progenitores, os meninos estão cada vez mais mais gordinhos e rosadinhos!!! Mas isto é pano que dava para muito mais que simples mangas; dava para aparelhar uma esquadra inteirinha de naus do tempo das Índias!!!
No outro dia, plantei-me de soslaio a observar a cena: tratava-se do monstro sagrado da conjugação verbal. Em vão, a esforçada explicadora tentava incutir no pupilo interesse pelos diversos tempos verbais do passado: "vá lá, diz-me agora a terceira pessoa do singular do indicativo activo do pretérito-mais-que-perfeito do verbo amar" e o garoto, titubeante, fazia caretas de ignorância perante aquela algaraviada. Vendo o impasse da situação, arranco-me do anonimato da esquina da porta da sala em socorro do apavorado catraio e dou o empurrão inicial: "eu amara... tu amaras..." e lá se foi desfiando, ainda assim hesitante, a lengalenga da conjugação verbal.
"Rapaz, se queres conjugar o futuro tens de primeiro conhecer muito bem o passado" - interpelo-o eu na vã esperança de que a semente do interesse não caia em solo estéril.

No meu tempo (como se costuma dizer por estas bandas), as mestras da escola primária eram adeptas de outras pedagogias, hoje consideradas pouco ortodoxas e porquanto agora em desuso, mas que, à época, produziam inquestionáveis resultados.
A veneranda Dª Albina, verdadeira heroína do povo na minha aldeia - merecedora, na minha modesta opinião, de efígie condigna a erguer (quiçá um dia) no centro do lugarejo - foi uma dessas inflexíveis professoras de escola primária.
Graças aos seus esforços docentes, três gerações aprenderam o bê-á-bá da língua pátria e iniciaram-se nos insondáveis mistérios das matemáticas. Movida certamente mais pela paixão ao ensino do que propriamente pelo salário que auferia (se bem que nesses saudosos tempos este mister era assaz bem remunerado e conferia posição social respeitada e de destaque), movida pela inabalável paixão, dizia eu, que a fazia percorrer de motoreta, todos os dias de manhã - faça chuva ou sol, Inverno ou Verão - os largos quilómetros que a separavam da austera escola, como ainda hoje recorda a minha mãe. Lá dentro estavam já perfilados, à sua espera, impecavelmente aprumados nos seus bibes, dúzias de alunos sedentos de aprender. Nesse tempo, como nós meninos, éramos diferentes dos de agora!
Se bem me lembro, as quartas-feiras eram dia de exercício de ditado cujos erros ortográficos e faltas de acentuação eram severamente punidos pela execução sumária de umas quantas reguadas proporcionais, em número e devoção na aplicação, à quantidade e gravidade daqueles. Havia, porém, uma qualquer indulgência de que já não me recordo. As quartas-feiras eram, portanto, dia de terror generalizado. O aproveitamento escolar de um aluno podia medir-se na inversa medida das reguadas apanhadas ao longo do ano lectivo; quanto menos vezes se tivesse dado, em sentido literal, a mão à palmatória melhor era o aluno. Orgulho-me de ser detentor de um cadastro (quase) imaculado ao longo de toda a escola primária que é o mesmo que dizer que fui um aluno exemplar. E não havia nada de perverso ou sádico nisto; eram as regras do jogo e todos - professores, pais e alunos - as aceitávamos como tal. A professora Albina chegou até, num raro rasgo de sentido de humor, a adornar a férula com uns fios de lã a imitar cabelos e um par de furos equidistantes a fingir olhos, no sentido de amenizar o efeito que a simples observação daquele objecto de castigo provocava em alguns alunos, sem contudo lhe retirar a intrínseca autoridade.

Hoje, é com alguma mágoa que vejo a língua portuguesa, que me é tão querida, ser tão maltratada e os, já de si pouco suficientes, esforços de educadores - pais e professores - malbaratados pela concorrência desleal das omnipresentes televisão e Internet.

Mas nem tudo são espinhos neste vale de lágrimas e há que reconhecer algum mérito a esta geração de actuais alunos: manuseiam, desde o berço, a tecnologia com um à-vontade ímpar e é já vulgar ver putos em idade de escola primária a usarem o inglês, o idioma comum nesta (cada vez mais) aldeia global.

14 comentários:

PC 28 disse...

Brilhante análise! ...e honra à tua senhora pelo esforço de tentar tirar o jovem da ignorância onde tem estado enfiado. Se bem que gostaria de deixar escrito, que apesar de considerar que escrevo de forma minimamente aceitável, acho que se me perguntasses pela "terceira pessoa do singular do indicativo activo do pretérito-mais-que-perfeito do verbo amar" o mais certo era mandar-te à merda. Às vezes (ou quase sempre) o problema da falta de interesse da juventude pelas letras deve-se à forma grotescamente 'viril' de ensinar as coisas. A maior parte das professoras tenta empurrar a lição pela garganta dos alunos abaixo como quem mete um supositório à bruta no cu de um bebé chorão.

Malena disse...

Espero que esta geração, manuseadora exímia da tecnologia, venha desaguar a este teu canto, onde a Língua Portuguesa é tão mimada! :))

Demóstenes disse...

Meu amigo PC28,

Brilhante (e hilariante) análise a tua!!!

E sim, tu és um gajo que escreve bem. Mais; tens, naquilo que escreves, uma qualidade que busco desesperadamente: sentido de humor!

Abraço,
R

Demóstenes disse...

Malena,

Obrigado pela visita e pelo comentário elogioso.

Simplesmente Maria disse...

R, sentido de humor ou se tem ou não se tem... e tu, meu caro... e nem posso dizer que quem procura sempre encontra, pois vais desta para melhor ainda procurando!

Bem humorado PC28, pertenço àquela minoria (não estou a falar do facto de pertencer à Juventude Popular!) que coloca o supositório gentilmente no rabinho de seja quem for!

CF disse...

Agradeço o comentário no meu blogue que está permeável a outros olhares, de forma a tornar mais rico um espaço, à partida, criado, com o propósito de "catarse" necessária em dias tão intensos de trabalho...espaço onde me espreguiço e liberto por lá umas ideias dos meus passos.
Todos os que me queiram acompanhar são bem-vindos!
O seu post, interessante pelo conteúdo e forma como o traduz!
Uma preocupação minha é tb a forma como os jovens se refugiam na TV e nos jogos... menos livros, menos leituras, menos asseio linguistico!!!???
As professoras do "antigamente"...tinham os seus segredos de inquestionáveis resultados como diz! As reguadas, quanto a mim, desnecessárias.
No entanto, outras estratégias procuram-se no mundo de hoje onde tudo parece ser permitido... menos a boa educação!
Voltarei...
CF

maria teresa disse...

Texto muito simpático e muito bem escrito, mas dás testemunhos um pouco fora da realidade.
No caso do "antigamente" tu não o viveste (sou tua seguidora desde que abriste este blogue e pelo que disseste andas pela idade dos meus filhos), eu vivi nessa época que descreveste e está muito exagerada, no sentido negativo.
Quanto ao actual a sociedade mudou não sei se para melhor se para pior isso e isso parece-me que nunca saberei.
A abordagem dos assuntos que focas já não se faz assim...A metodologia teve que se adaptar ao surgimento das novas tecnologias, caso contrário cada uma das partes remava em sentido contrário e ficava-se sempre no mesmo sítio.
As crianças desde que as saibam "conduzir" na aprendizagem, ficam a conhecer e a saber procurar os caminhos para o conhecimento.
Aprender a aprender deverá ser o lema, a tua mulher deveria estar atenta ao modo como isso se faz.
Que pena a tua professora não se ter chamado Albana...
Abracinho meu

Demóstenes disse...

Maria Teresa,

Tenho precisamente a idade de Nosso Senhor quando o pregaram ao madeiro...

... e tem razão quando diz que as situações que retrato são mais próprias do tempo dos meus pais; se bem que no meu ainda se usou e abusou da palmatória...

Quanto aos meninos de hoje, penso não estar a afrontar a verdade ao afirmar que o panorama é francamente desolador.

Os tempos são, portanto, de desafio, especialmente para pais e professores. E nós, enquanto sociedade civil, não nos demitamos do nosso papel de educadores através do exemplo!!!

PC 28 disse...

Carissimo,

sem pretender gabar a tua prosa para lá do correctamente aceitável, pois pode correr-se o risco de perderes a humildade e tornares em mais um daqueles "atletas-promissores-que-se-destacaram-nas-camadas-jovens-mas-cujas-exigências-da-alta-competição-tolheram-as-capacidades", gostaria de deixar vincado que, sem favor nenhum, reconheço em ti bastante sentido de humor na análise das questões. Porém, é um sentido de humor que está ainda um pouco 'preso' de movimentos. Tens que soltar um pouco mais o 'Benny Hill' que tens dentro de ti. Escrever com sentido de humor é como os supositórios: temos que estar descontraídos, libertos de preconceitos e ter a mente aberta. (no caso dos supositórios outra coisa terá igualmente que estar aberta)

Demóstenes disse...

Meu caro amigo PC 28,

Grato pela solidariedade masculina ao acorreres em defesa do meu sentido de humor.

Não posso contudo deixar de notar que, estando em causa o capital humano da nação e consequentemente o futuro desta, tenhas usado uma semântica associada ao tracto digestivo. Pura coincidência? Quero pensar que sim; ou então, não, que, bem vistas as coisas, isto está mesmo condenado a ir pelo cano abaixo num dilúvio de autoclismo!!!

PC 28 disse...

A curto prazo, iremos estar todos agarrados ao 'pau', como tão gentilmente a tua senhora fez questão de salientar na minha página do Facebook. A diferença é que eu já estou preparado para quando tal suceder...

Mar Arável disse...

Belo texto

De facto nem a nossa língua
escapa aos predadores

Carmo disse...

Simplesmente fabulos.

Boa semana

sinfonia disse...

Um prazer ter chegado a este
blogue onde espero/desejo voltar.
Saudações/Irene