segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Untitled

Há qualquer coisa de inexplicavelmente irracional em arrancar-me ao conforto da lareira para enfrentar a noite escura lá fora.
Há algo de escandalosamente errado em privar-me, por vontade própria, da companhia da minha filha de três anos com o fim único de sair porta fora para correr.
Ainda assim vou sem hesitar e levo comigo todo um mundo de palavras, ideias e pensamentos. Correr tornou-se para mim tão profundamente vital como dormir ou alimentar-me. Faz agora parte de mim como o meu próprio nome.
O medo primitivo do escuro, num caminho mais sinistro ladeado de eucaliptos e ciprestes, assalta-me o espírito. A cada exalação, a brisa mentolada e fria fere-me os pulmões espetando-os como agulhas. Ao ouvir o peso das minhas passadas contra o alcatrão, os cães saúdam-me, latindo à minha passagem. Incendeiam-se-me os músculos e a voz rouca de Sir David Gilmour grita-me ao ouvido, ironicamente e em estéreo, you better run!
Estou só. Profundamente só.

As pessoas, dentro dos seus topos de gama devidamente climatizados, apressam-se a regressar a casa depois de mais um dia de trabalho. Ao ver-me, que pensarão? Pouco me importa o quão doido me acham. Ignoram o pouco que é necessário para ser-se feliz.

Naquele tempo em que os meus músculos vencem a distância, em que submeto a estrada à minha vontade férrea, sou livre.

Não há nada de mais puro e ascético que a corrida e tenho cá para mim, correndo o risco de proferir heresia ou blasfémia e consequentemente incorrer em perigo de excomunhão, que se Deus encarnasse novamente seria no corpo de um maratonista queniano.

Imagem: pormenor de vaso grego patente no Metropolitan Museum of Art - NY

9 comentários:

maria teresa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
maria teresa disse...

Não acredito que a corrida seja a única maneira de libertar as ideias e o pensamento, nem dos sentirmos livres, quem o costuma afirmar são os fanáticos por esta modalidade.
Não creio em Deus, infelizmente, mas há muita gente boa que tem fé, porquê terminares o teu texto, mais a mais, apontando o "risco que corrias" com o último parágrafo.
Para provocares? Provocação gratuita! Retiraste toda a "qualidade" ao que descreveste anteriormente.

Demóstenes disse...

Maria Teresa,

quer-me parecer que a excomunhão chegou mais cedo do que esperava...

maria teresa disse...

Quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele...

PC28 disse...

Muito pelo contrário, o último parágrafo enche-me as medidas.
E até te digo mais: Deus, se existisse e fosse atleta, tomaria doping quase de certeza.

Abraço

maria teresa disse...

Deus se existisse "eliminava" à partida as pessoas "idiotas", que poluem a humanidade, que na base do anonimato, só assim, conseguem dizer tanta asneiras!O que vale é que me fazem rir:):):)

CF disse...

O que fala sobre a persistência da corrida... a fluidez das ideias... a sensação de liberdade... tb o sinto quando corro. Compreendo quando refere que se tornou algo que passou a fazer parte da sua vida. O exercicio fisico devia ser um hábito, tal como outra actividade quotidiana. Não digo que seja só a corrida, mas qualquer outro desporto, que implique a diminuição do sedentarismo a que as sociedades modernas se acomodaram.
Tb sinto o olhar que me deitam quando, já de noite, passo pela rua a correr. Devo dizer que, infelizmente, o frio destes dias arrepiaram-me caminho!!!!
Terei de encontrar outros espaços e horários...
Abs

PC 28 disse...

"O que vale é que me fazem rir:):):)"

É caso para dizer que algumas pessoas riem-se com pouco. Esse tom jocoso com que as "MARIAS TERESAS" deste mundo avaliam os comentários de terceiros (sem os conhecer de lado nenhum) poderá ser fruto de uma retracção mental (por nascimento ou por vivência posterior) que as impede de aceitar outras correntes de pensamento.
Deus, se existisse, dir-me-ia para respeitar o espaço blogosférico deste meu amigo e não "poluir" a sua caixa de comentários com uma resposta à altura do comentário estigmatizado da "não anónima" Srª Dª "Maria Teresa", próprio de quem sofre eventualmente com algum tipo perdurável de complexo existencial eventualmente danoso para o seu sentido de humor e para a faculdade de interpretar um momento de pura descontracção.

Peço sentidas desculpas, se porventura em algum momento da minha intervenção de cariz meramente descontraído (lá está, o oposto de "retracção"), fui leviano e lancei alguma chaga petulante sobre a sua convulsiva sensibilidade humorosa.

Carmo disse...

Olá Demóstenes, excelente texto!
Pena é que as pessoas não liguem ás pequenas coisas, pois são elas que nos fazem felizes.

Um abraço e boa semana